POR ISSO
eu não preciso olhar mais para fora,
porque o fora já me tomou
através das janelas digitalizadas,
através das pontes cibernéticas
pelas quais me desloco inerte
em dedos e multitelas.
O meu limite agora é o dentro !
A minha aventura
é o dentro
da casca de concreto
onde toco clausuras vítreas
de funduras não inteligíveis
de mim
e
misturo-me ao abissal,
escamoso ou liso,
fosforescente
como olhos de lanterna:
- SOU peixe MUTANTE!
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
Fragmento
Vou ficar em silêncio
mesmo que o silêncio não me sirva
e eu deseje mesmo o movimento
a fala incontida,
os dedos sobre o seu corpo,
a aresta vincada com unha do origami,
o seu sorriso fácil,
a imagem entrecortada
desses pequenos prazeres
os dedos sobre o seu corpo,
a aresta vincada com unha do origami,
o seu sorriso fácil,
a imagem entrecortada
desses pequenos prazeres
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
Memória
Certo que uma palavra dita uma única vez possa,
inexoravelmente, atravessar a camada córnea
e ali permanecer
como a um berne
apodrecendo a carne.
Coisa mais nojenta!
põe-se uma manta de toucinho
sobre o ferimento vulcânico,
aguarda o berne apontar para o respiro
e então, pinça-o com a destreza de um médico cirurgião vulgar,
um curandeiro de ladainha incensada:
- Que não deixe seus ovos!
Depois com fósforo e álcool,
incinera-o.
(O fogo é elemento fundamental para purgar o mal:...)
II
mas,
sendo a palavra substância sem veículo corpóreo,
sobre ela não se põe emplasto,
não se extrai com pinça,
não se atiça o fogo
III
a palavra!
ah, o que se faz com a palavra?
aquela ouvida para se instaurar como a um mal,
como a um berne?
IV
Recomendação:
não a detenha!
Deixe que circule mas não a detenha.
Nunca a detenha!
inexoravelmente, atravessar a camada córnea
e ali permanecer
como a um berne
apodrecendo a carne.
Coisa mais nojenta!
põe-se uma manta de toucinho
sobre o ferimento vulcânico,
aguarda o berne apontar para o respiro
e então, pinça-o com a destreza de um médico cirurgião vulgar,
um curandeiro de ladainha incensada:
- Que não deixe seus ovos!
Depois com fósforo e álcool,
incinera-o.
(O fogo é elemento fundamental para purgar o mal:...)
II
mas,
sendo a palavra substância sem veículo corpóreo,
sobre ela não se põe emplasto,
não se extrai com pinça,
não se atiça o fogo
III
a palavra!
ah, o que se faz com a palavra?
aquela ouvida para se instaurar como a um mal,
como a um berne?
IV
Recomendação:
não a detenha!
Deixe que circule mas não a detenha.
Nunca a detenha!
a máquina da noite
tique-taque taque
uma nova ordem instaurada,
nada a ver com a máquina do coração,
o relógio digital.
deve ser louco
aquele que reitera
a obviedade das coisas
uma nova ordem instaurada,
nada a ver com a máquina do coração,
o relógio digital.
deve ser louco
aquele que reitera
a obviedade das coisas
-o relógio, antigamente,
fazia um tique-taque, tique-taque...
vinha da sala e
ressoava pelos outros cômodos
até desaparecer, hipnoticamente, em sono.
Acordávamos sem o tique-taque:
sim,
alguma coisa surgia e se perdia com a noite!
segunda-feira, 7 de agosto de 2017
Diálogo
às vezes,
coloco as mãos por primeiro
e faço.
Outras, coloco o coração por primeiro,
em seguida
o restante do corpo.
o que quero dizer com isso
é que
às vezes eu construo e passo a ter amor;
outras,
amo fora do processo.
só não deixo de amar
nunca.
sexta-feira, 7 de julho de 2017
1º de agosto de 2016 (fragmento autobiográfico)
Eu me tornei leonino.
Mudei a data do meu aniversário para o dia 1º de agosto. No dia 1º de
agosto eu nunca mais fui o mesmo. Mas só quem já perdeu o chão alguma ou
algumas vezes compreenderá esse texto. Nada de se imaginar no lugar do outro
como a um especialista acadêmico, um religioso caridoso, filantrópico ou
simpatizante. Se você não sentiu o que eu senti, retire suas palavras do meu
caminho. Essa não é a sua luta e nem a sua vida. Sim, só pode falar de paixão, quem
já se apaixonou; só pode falar de vício, quem é ou já foi viciado; só pode
falar de dor, quem deveras já sentiu, e por instantes viu seu chão sumir num
cadafalso: a corda apertando a garganta, sufocada em choro e pavor; e passou
dias indo dormir com o choro repreendido num sorriso para que ninguém percebesse
o quanto estava doendo, o quanto tudo, de uma hora para outra tinha se tornado
mortal, ou se apercebido mortal. Os superpoderes da adolescência ruíram. Não
era mais eu e também não era mais ninguém. Parece confuso, mas é só sentimento.
Naquele momento, e no outro momento e no seguinte, eu também não
poderia ser mais ninguém. Morri um pouco. Morri mais um pouco. Olhava-me no
espelho inventado de mamãe Oxum, e me perguntava: em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília, quantas vezes eu me reportei aos seus poemas, e dali fui
alçado, ainda que um pouco sujo, atrofiado, como a um passarinho que num
deslocamento rasante, dá com o bico na vidraça e atordoado não se imagina mais
voando. Mas passado o momento, torna a voar... Diferente das outras vezes em
que havia algo de estético no sofrimento, dessa vez, havia um sofrimento de
verdade. Era físico, mas que não se podia extrair; era imoral e sujo, de uma
sujidade microscópica, científica e distante.
- No teu espelho, Cecília, eu caí, irreconhecível!
Por onde eu andei, através do espelho, eu vivi mundos lúdicos de
horror. Havia tantos outros como eu! Todos contaminados, com feridas, escaras,
protuberâncias purulentas, mutações animalescas que permitiam voar, engatinhar
ou sentar às escrivaninhas e manter seus trabalhos normalmente, mas sem
expectativa de cura: uma burocracia! Uma pílula que pousa sobre o estômago, mas
sem promessa de toque! Um malote de correspondência recebido, outro entregue,
mas sem expectativa de cura. Eram de fato monstruosos!
\ como conseguiam?
\ como eu consegui?
\Riam-se de mim e do canto de suas bocas, encharcavam-se de pus e isso
não lhes doía. Como não podia lhes doer?
/ Eu saí correndo.
/ Fuga.
\ Tão purulento e monstruoso quanto eles, tão viral e contagiante
quanto eles.
/ Fuga. Eu cansei de fugir.
Foi quando me sentei, e estanquei o choro comprimindo os olhos induzido
por uma força de redescoberta. Aí você me pegou no colo, disse algumas palavras
e eu voltei a chorar, a me desfazer e refazer, e nos desfizemos e nos
refizemos, dia após dia, com amor e por amor.
1º de agosto de 2017. Eu me tornei leonino, não que eu acredite mais com
fervor em astrologia como antes; não que eu precise me explicar sobre qualquer
coisa que eu creia ou deixe, não mais:
Que eu me livre de ser
De estar sendo
Aquilo que querem de mim
Não mais hoje!
Hoje eu sou outro
Hoje eu sou quem eu quero ser
Pra quem eu quero ser
Com quem eu quero ser
Reconstruído
Vivo
De pazes com a morte.
domingo, 25 de junho de 2017
Noite de sono
Quero, sei lá... ser livre!
deixar o passado lá
e sair cantando
la ra ra
a gente sabe que é possível!
começa sem muita vontade
num assovio tímido,
quase um chiado;
um rangido de dentes;
uma fresta de luz cortando a escuridão
NUM GRITO
- FALE!
logo estamos rendidos!
um dedo a mais que se mexe
outro corpo contaminado
pelo movimento
que o anima;
outra boca que se abre
num milagre:
um milagre essencial:
por um milagre cotidiano!
Outro Lázaro que ressurge,
tique-taque-taque
desperto da cama,
escovo os dentes,
beberico meu café,
penetro o dia desatado
dos nós
e
deixo-me ir
deixar o passado lá
e sair cantando
la ra ra
a gente sabe que é possível!
começa sem muita vontade
num assovio tímido,
quase um chiado;
um rangido de dentes;
uma fresta de luz cortando a escuridão
NUM GRITO
- FALE!
logo estamos rendidos!
um dedo a mais que se mexe
outro corpo contaminado
pelo movimento
que o anima;
outra boca que se abre
num milagre:
um milagre essencial:
por um milagre cotidiano!
Outro Lázaro que ressurge,
tique-taque-taque
desperto da cama,
escovo os dentes,
beberico meu café,
penetro o dia desatado
dos nós
e
deixo-me ir
quarta-feira, 12 de abril de 2017
Liberdade
se eu passar por esta noite ileso
passo pela seguinte
e pela próxima
também ileso
é necessário a repetição:
a loucura a exige
tanto quanto a liberdade
eu sairei ileso esta noite
e na próxima e próxima noite
eu sairei ileso
também
fora as amarras
do corpo e do sonho
eu já estarei livre
passo pela seguinte
e pela próxima
também ileso
é necessário a repetição:
a loucura a exige
tanto quanto a liberdade
eu sairei ileso esta noite
e na próxima e próxima noite
eu sairei ileso
também
fora as amarras
do corpo e do sonho
eu já estarei livre
Vazio
criar o vazio
delimitando-o com paredes
dispor alguns móveis,
principalmente
sofás, bancos, cadeiras e chão...
sentar-se nestes
acender um cigarro ou um incenso
ou a lareira defronte
acender
deixar que seja fumaça
que se evole o pensamento
que se espraie a cinza, o corpo e as paredes
átomo a átomo
até ser nada
e tudo
existencialmente
vazio
principalmente
sofás, bancos, cadeiras e chão...
sentar-se nestes
acender um cigarro ou um incenso
ou a lareira defronte
acender
deixar que seja fumaça
que se evole o pensamento
que se espraie a cinza, o corpo e as paredes
átomo a átomo
até ser nada
e tudo
existencialmente
vazio
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
Sendo o amor uma escolha
Quando ele me disser vem, não terei medo de ir
estarei pronto o momento que for
sem dúvidas ou medos bobos
:
de todas as escolhas,
o amor
é a que exige mais coragem
estarei pronto o momento que for
sem dúvidas ou medos bobos
:
de todas as escolhas,
o amor
é a que exige mais coragem
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
Medo de ficar Zen
Vou começar a dizer por dizer
desvairadas palavras
que pelo corpo
ricocheteiam
como trovões ao longe
e não muito longe
quero mais que se foda tudo isso
quero a palavra racional
como tratamento de choque
:
raspar a cabeça
ainda me é a catarse
mais apropriada
Apatia
Isso não é meu.
esses sentimentos embotantes do pensamento e da alma
.
fico parado
observando esse desajuste
e lá de dentro
ouço um rangido
de porta que não se abriu
de engrenagem emperrada
que não girou
mas que marcou no tempo
seu descompasso
esses sentimentos embotantes do pensamento e da alma
.
fico parado
observando esse desajuste
e lá de dentro
ouço um rangido
de porta que não se abriu
de engrenagem emperrada
que não girou
mas que marcou no tempo
seu descompasso
terça-feira, 18 de outubro de 2016
sábado, 3 de setembro de 2016
Verticalização
II
No círculo da Bruxa
acenaram positivamente para mim
que sim! sim,
haviam percebido minha chegada
antes mesmo de ali me fazer presente
de me sentir presente
corpo e mente
num deslocamento improvável
de despertencimento
nem onde estive, nem onde estava
(...)
embora pudesse lhes trazer à mente
um quadro de Francisco de Goya:
figuras míticas do assombro:
bestas deglutindo crianças
como quem aperitiva pedaços de frango;
bruxas em seu trajes miseráveis
em torno de um diabo a sorrir,
de chifres e guirlandas,
tudo
sobre um fundo escuríssimo
como nos olhos negros
do menino que há pouco vi na foto.
No círculo da Bruxa
acenaram positivamente para mim
que sim! sim,
haviam percebido minha chegada
antes mesmo de ali me fazer presente
de me sentir presente
corpo e mente
num deslocamento improvável
de despertencimento
nem onde estive, nem onde estava
(...)
embora pudesse lhes trazer à mente
um quadro de Francisco de Goya:
figuras míticas do assombro:
bestas deglutindo crianças
como quem aperitiva pedaços de frango;
bruxas em seu trajes miseráveis
em torno de um diabo a sorrir,
de chifres e guirlandas,
tudo
sobre um fundo escuríssimo
como nos olhos negros
do menino que há pouco vi na foto.
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
Lá onde os sonhos se tornam pesadelos
Diante da máquina obsoleta
adentrei seu corredor
ladeado de portas
diametralmente opostas.
De um lado,
Desfiladeiro de sonhos!
Do outro,
Desfiladeiro de sonhos!
E na minha arrogância,
Ousei ser maior que a
adentrei seu corredor
ladeado de portas
diametralmente opostas.
De um lado,
Desfiladeiro de sonhos!
Do outro,
Desfiladeiro de sonhos!
E na minha arrogância,
Ousei ser maior que a
Morte.
quinta-feira, 31 de março de 2016
não ser
o que ao vento se dava:
anteparo qualquer
em que repousa o destino.
Um campo cheio de destinos!
e na linha do horizonte,
entre o céu e a terra, no tempo,
(...)
uma nuvem formada
onde embrenhado meu corpo esteve
a correr, a desprender-se,
a mesclar-se na velocidade
com que tudo se desfaz e se refaz,
no enleio que é a morte:
- Acuso-lhe de não ser eu,
Homem ou flor,
Nem você, dente-de-leão,
Presa ou bicho.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
Fragmento - 15 de janeiro de 2016
(...) cometeria uma loucura hoje porque é meu aniversário, e sendo ou não coisa inventada, vibra em mim uma energia de realização; uma loucura parecida com as cometidas pelos andarilhos mal criados, mas diferente. Sairia xingando, palavra encadeando palavra, palavrão encadeando palavrão, tudo isso sem mágoas ou dores, apenas por deleite amoral, (ato inconsciente de repúdio? Quero acreditar que não). Sairia nu, porque ainda considero a nudez o nosso melhor discurso de aceitação e de permutação entre egos. (...) Sempre me pergunto o porquê das pessoas gastarem tanto dinheiro com roupas, se a maior vaidade mora no corpo, que por si só se diferencia e se referencia, causando ao mesmo tempo em si e no outro, desejo e repulsa. Eu, entre tantas coisas, apenas um corpo a ser desfrutado pelo tempo, por mim e pelos outros. (...)
Pornô XVI
Já fui de transar com qualquer um,
hoje transo com desconhecidos,
apenas desconhecidos.
Desconhecidos de um dia ou de um ano.
De anos talvez?!
Até agora o mais desconhecido tinha 26 anos,
Foi quando transei comigo mesmo;
Toquei em partes que delas nunca imaginei
Extrair prazer.
Riem de mim os que namoram,
Os que se conhecem, os que só transam com conhecidos,
Os seguros de si...
iludidos!
hoje transo com desconhecidos,
apenas desconhecidos.
Desconhecidos de um dia ou de um ano.
De anos talvez?!
Até agora o mais desconhecido tinha 26 anos,
Foi quando transei comigo mesmo;
Toquei em partes que delas nunca imaginei
Extrair prazer.
Riem de mim os que namoram,
Os que se conhecem, os que só transam com conhecidos,
Os seguros de si...
iludidos!
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Chá de camomila
Acalmar as gengivas
Estancar o sangramento
Imobilizar a bactéria
Combatê-la
Erradicá-la da raiz
Antes que dela se alimente,
E fortalecida,
Derrube-nos.
Estancar o sangramento
Imobilizar a bactéria
Combatê-la
Erradicá-la da raiz
Antes que dela se alimente,
E fortalecida,
Derrube-nos.
domingo, 10 de janeiro de 2016
Cu
O cabelo de cair sobre os olhos,
De contornar as pálpebras
que sobrepõem o seu oculto.
Toco o seu supercílio
que
assustado se contrai.
Há realmente segredo no que ocultas
ou eu que inventei segredo em si?
Segredo um segredo:
por trás dos teus cabelos visiono um
tesouro?
Um oculto?
Um olho?
Ou um cu?
De contornar as pálpebras
que sobrepõem o seu oculto.
Toco o seu supercílio
que
assustado se contrai.
Há realmente segredo no que ocultas
ou eu que inventei segredo em si?
Segredo um segredo:
por trás dos teus cabelos visiono um
tesouro?
Um oculto?
Um olho?
Ou um cu?
Pornô XV
Sim,
Dizer que o amei desde então
Desde nossas vistas encontradas
Sem saber se ali morava prazer
Dizer que o amei desde então
Desde nossas vistas encontradas
Sem saber se ali morava prazer
sábado, 9 de janeiro de 2016
Exercício
Me apego a certa lembrança, a única.
Metonímia de você
Vivificada e vibrante.
Objeto
Me apego a certo objeto, o único.
Metonímia de lembrança
Você, vivificado, mas dormente.
Toco certo objeto, o ponto.
Pingo limão na ostra inamovível
Ato sofrível, mas de desejoso palato.
O seu orifício, antes dormente,
Agora vivificado,
o orifício a contrair-se ao meu toque
Metonímia de você
Vivificada e vibrante.
Objeto
Me apego a certo objeto, o único.
Metonímia de lembrança
Você, vivificado, mas dormente.
Toco certo objeto, o ponto.
Pingo limão na ostra inamovível
Ato sofrível, mas de desejoso palato.
O seu orifício, antes dormente,
Agora vivificado,
o orifício a contrair-se ao meu toque
- Eu o engulo!
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Pornô XIV
O apartamento vazio. Só o meu nonsense e o conselho do meu amigo ocupando o espaço entre paredes-intracranianas: ”Foda num apartamento vazio, parece que você está fodendo com várias pessoas ao mesmo tempo!”. Sim, basta outro corpo para que queiramos vários outros corpos em núpcias. Porque deveras tudo se multiplica: os gemidos reverberam em ecos, o cheiro manifesta-se evolado como fumaça de incenso e tudo o que é fluído apresenta-se como veios, vertentes d’água brotando e intumescendo abundantemente o que penetra e o que será penetrado. Nos percebemos submersos, inundados, confundidos em líquido; depois somos jogados pela arrebentação numa encosta rochosa e permanecemos lá, também rochosos, até recuperarmos os sentidos e nos compreender separados, únicos, num apartamento vazio.
Pornô XIII
Ele disse que ia perder a virgindade do cu comigo, exprimi um sorrisinho cínico e hipócrita que refletia meu pensamento: vai ser minha putinha! Vou arregaçá-lo, deflorá-lo, desbravá-lo, tirar a sua pureza com meu pênis, com minhas mãos, com meus pés (o pé do anjo por baixo da saia enquanto Santa Tereza se extasia)... mas o mais importante é a penetração do pênis desconsiderando qualquer sinal de dor, impondo-lhe toda a minha macheza, porque serei ativo e ele passivo, meu passivo e minha putinha, inferior a mim, mulherzinha de macho.
Já era alta a noite e buscamos um hotel no centro da cidade. Subimos uma escadinha de um hotel que cobrava cinquenta reais a pernoite. Ele ficou de costas esfregando sua bunda no meu pau e todo o seu corpo trejeitado para me seduzir, mas meu pau não levantou, brochei. Então ele me tomou e jogou na cama, baixou as calças e me meteu seu pau enorme sem que eu tivesse escolha, sem que eu pudesse dizer o que sentia, sequer me beijou ou disse coisas carinhosas. Ele gozou e eu chorei.
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
Pornô XII
Quando pequeno, minha mãe recomendava indagando aos gritos, de onde estivesse, se eu já havia lavado bem atrás da orelha; e a voltinha da cabecinha do pintinho, e a bundinha? Sim, sim, sim. Estão bem lavados. Como se nessas partes habitasse toda a sujeira do mundo, derivações da cloaca máxima. Outro dia, minha tia descobriu toda a sujidade possível que um umbigo podia conter quando subiu minha camiseta e aproximou seu nariz para dar uma fungada. Repreendeu a minha mãe: “tá fazendo vista grossa com o umbigo do menino?”. Pegou um cotonete com água e sabão e o cutucou. Cutucou as pequenas canaletas acumuladoras e retirou a sujeira. Semanalmente minha mãe inspecionava meu corpo, os meus orifícios, as minhas voltas e dobras, porque filho dela não podia andar feito gato que tem medo d’água. Consequentemente, outras partes do corpo ganhavam atenção diante dos seus olhos. Lavou bem entre os dedos filho? E o sovaquinho? Sim, sim, sim, sim! Estão bem lavados, desencrostados, desensebados. Ah, desensebados! Era tão limpinho que durante a minha infância e adolescência meus primos me apelidaram de sebinho, e durante o mesmo período, passei mais tempo debaixo d’água a me desensebar do que brincando. Escrevo isso na tentativa de me libertar, porque maior é a frustração: quando tirei o pau da cueca, toda aquela ansiedade de um pau duro e babado, pronto para receber um boquete da garota que estava ajoelhada. Ela aproximou sua boca e nariz, exatamente como a minha tia e exclamou: que pau limpinho... nem tem cheiro de pau! Meu pau foi amolecendo dentro da sua boca e não pude fazer mais nada. Pior que reprimir o choro, é reprimir o gozo.
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
fragmento
Cachorro abana o rabo quando está feliz. Minha mãe solta gritinhos exaltados quando percebe tocar uma canção da qual gosta muito. Olho-me no espelho e noto que a minha íris está aparentemente mais clara, mais esverdeada que o normal. Sinto-me mais bonito por isso e sorrio envaidecido. O coração envaidecido reverbera. Mas há dias em que também me olho no espelho e está lá, a volta esverdeada contornando o castanho-mel e me entristeço. Será também que nem sempre quando o cachorro abana o rabo ou a minha mãe ecoa pela casa é indicativo de felicidade reinante? Por vezes a vida não é inteligível.
domingo, 24 de maio de 2015
Vento
Ando muito abalado, pendente, não firmado
Como se algo muito maior que eu
Pudesse me derrubar...
Uma rajada de vento
Entre as aletas da veneziana;
Um expiro das minhas narinas
Outro das suas, Gemini
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