sábado, 22 de janeiro de 2011

domingo, 9 de janeiro de 2011

Pequenos besouros negros

Pequenos besouros negros repousam
onipotentes e divinizados
como duas opalas exoesquelética:
o meu pecado foi tê-los partido com machado,
porque quando partidos,
desmancham-se em geléia.

*
Copiei milhões de faces
até que me fosse dado
o direito de ser;
era pai, era filho, era avô;                                                              
era aquilo que por decência
deveria ser antes de envelhecer
ou até que por fim, àqueles,  os juízes da minha vida,
morressem
e quando morrem
são como pequenos besouros negros:
puntiformes, reclusos
como sempre foram.

Rasguei milhões de contratos
e aí me concedi
o direito de ser:
não me incumbi de papéis
não quis ser forte, fraco, nem homem, nem mulher ;
não me interessava por noticiários;
deixei que o corpo fosse o relógio
dos meus dias.

Perguntassem-me se há felicidade em ser apenas,
responderia que não.
Existe apenas uma rigidez nos músculos do pescoço
que sustenta sua cabeça pela tensão da estrutura;
uma amargura latente que lhe rói pertinaz
e não há alopático que resolva
por muito tempo.

No fim seremos como eles:
pequenos besouros negros.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

apontamento triste para o natal

porque o mais íntimo de mim grita solidão
é que me sirvo de silêncios súbitos
e inóspitas paragens.

24/12/2010


domingo, 19 de dezembro de 2010

apontamento

se for me repetir
que eu me repita do seu lado
pelo hábito de sorver
o continuo
e inevitável sempre.
Permita que a faca
fure olhos e respingue 
na boca o homicídio. 
Sou feitor de lendas 
e dos próximos assassinos 
que assim como eu 
continuarão deitando pelos séculos 
os homens manchados
pela covardia. 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Sobre Marta

Marta tem me consumido durante dias e noites. Há momentos em que preciso mandá-la embora, essa mimada.
A verdade é que estou apaixonado por Marta, e caso não a mate antes das 40 páginas, terei um romance.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Marta

Inverno de alguma data não muito precisa. Marta levanta-se com o corpo dolorido por ter dormido em posição fetal, por isso mais cansada do que quando se deitou à noite anterior. Já na cozinha, Marta reacende seu cigarro que mantém escondido na gaveta de talheres, há dois anos que ela adquiriu este hábito de fumar meio à noite e meio de manhã. Toma um gole de guaraná que a esperta, e segue rotina. 

Marta possuía apenas vinte e dois anos, fumava há dez; começou por que achava elegante aquelas mulheres dos filmes. Fez faculdade de música, e era bem sucedida, tocava na orquestra estadual. Não era casada e nem tinha filhos. Morava sozinha, sem nem ao menos um gato para fazer-lhe companhia, e sua vida não era insuportável por todas essas suas não personagens adquiridas pelo tempo, quem sabe isso tivesse algum papel secundário, todavia o que tornava sua vida uma merda era aquela monotonia monocromática que ela tinha que aturar pela manhã. 

Existe um breve momento, breve, mas que perdura o tempo exato para que tu percebas que deves procurar um novo caminho, revolucionário em essência, que o leve para mundos desconhecidos, românticos, colorido de vermelho de boca de menina nova e sensual ou de vermelho vestido-para-matar. 

Marta abre a gaveta de seu guarda-roupa para pegar sua luva, o cheiro de naftalina, de tempo morto conservado a formol, entra por sua narina e a desestabiliza, por reflexo segura-se para não cair, porém, decide cair, solta em queda livre, pronta para se permitir existir. Momento impasse, passo ou me passa? Opta por passar. 

Ela põe seu violão sobre as costas e abandona o violino, maldito instrumento que a conquistou pela estabilidade financeira em uma orquestra. Leva também algumas roupas, pouco dinheiro, iria ser artista de rua, viajar e viajar sem rumo certo, andarilho de praça mostrando o melhor que tem pelo o mínimo que os transeuntes têm a oferecer, quem sabe um prato de comida, uma parada repentina para ouvir o que ela tinha para tocar e cantar, isso já era maravilhoso, ter a atenção de alguém nesse mundo que tem pressa de tudo. 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Parágrafo

Parágrafo
Sou dado as coisas assim prontas, como quando uma coisa alude a outra e tudo flui em harmonia; um futuro rodeado na ciranda que deita rodas gigantes em carrosséis, assegurando-me giros sem alturas. As coisas assim prontas surgem do meu anexionismo: o que me é compreensível é porque também me compreende, o resto ignoro; os que insistem, construo divisas e isolo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Para reafirmar a poesia

Três pingos d’água.
Ao chão chegarão dois.
Para reafirmar a poesia
um se perderá no espaço.

Três estalos no telhado
reconhecerão dois gatos.
Para reafirmar a poesia
um será desconhecido.

Três batidas na porta
abrirão duas.
Para reafirmar a poesia
uma continuará fechada.

-Quando conquisto o mistério,
logo arranjo um jeito de deixá-lo
mudo.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Mais que os artrópodes


"Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.Tudo que não fala, faz."
(adélia prado - amor feinho)


O meu amor é macérrimo e doido por sexo.
Carrega rosário nos domingos,
nos outros dias
faz a via crucis do meu corpo.

Não entrou na minha vida
arrombando portas,
tampouco pediu permissão.
Foi enrodilhando corpo
feito minhoca

corpo e terra
corpo e terra
corpo e terra

quando se percebeu
já estava com as raízes.

Estranho é pôr os sonhos sobre o mar ao invés do veio de rio próximo que você me assenta.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Os fora-da-lei

meu EU dedilha palavras,
corrompe parentescos
ao tentar liga
no teu sangue alheio.
e tudo em mim
confundido em ti
será impróprio em nós
e a seguir seremos
seqüestros
impiedades
contravenções.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A dúvida agora é o princípio do molde e do gesto. O primeiro corte umbilical se deu quando? Partiu da idéia de separar-se da cria? É como atirar em alguém, há uma bala, há um revólver, há um gatilho, há uma vítima e há um assassino, dito, há um homicídio. Antes de tudo isso, há um outro antes que supostamente já teria assassinado e esse é o início. Penso em matar, já matei, engatilho, estouro, mato. E não há nada o que se entender ou julgar. Escrever é tão primitivo quanto a própria idéia de primitivo, que talvez seja tão recente quanto Cristo. E foi Deus quem disse: sois primitivos, chimpanzés, ainda está na fôrma os verdadeiros humanos. Assim aceitaram e assim continuaram vivendo primitivamente. Depois disso vieram pomposos e evoluídos e humanos trucidar os chimpanzés porque neles não se reconheciam.

sábado, 16 de outubro de 2010

Intento

Dei ao desejo um pedaço de fita negra
e fiz feitiço na festa de santo.
Diziam-me:
teu corpo é Rei, dança...
lança pedra no fundo do poço,
liba a terra com pinga,
acende charuto,
pede benção
e sê terreno
que é de corpo
que Deus vive.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Hilda Hilst - SONETOS QUE NÃO SÃO

1

Aflição de ser eu e não outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
e à noite se prepara e se advinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha).
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
-blog em recesso-

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Adélia Prado

Sensorial

Obturação, é da amarela que eu ponho.
Pimenta e cravo,
mastigo à boca nua e me regalo.
Amor, tem que falar meu bem,
me dar caixa de música de presente,
conhecer vários tons para uma palavra só.
Espírito, se for de Deus, eu adoro,
se for de homem, eu testo
com meus seis instrumentos.
Fico gostando ou perdôo.
Procuro sol, porque sou bicho de corpo.
Sombra terei depois, a mais fria.

- blog em recesso -

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sandra Heck

I

Noto
mas não anoto
por isso me esfolo
choro
Noto
mas não anoto

Anotaria
se quisesse terminar
fatos e atos
pra superar,
não quero findar
quero dúvidas pra continuar

Anotaria
se pudesse parar.

*Sandra Heck é uma poetisa da cidade de Blumenau - SC.
**Poema retirado do livro Blumenália Poética 2

-blog em recesso-

sábado, 25 de setembro de 2010

Hilda Hilst - Do Desejo - Poema I


Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.


- blog em recesso -

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Vacalharia

Estamos todos em recesso? ou vazios de algo? Me exauriram as peles e foi tudo "vacalharia" grotesca. Vontade mesmo é o de ser regional, contar causos, mas ouvir mais.

Cumpadres discutiam a existência do Diabo e Atanázio com toda sua crença, disse que se Ele aparecesse se borrava nas calças ou caía duro no chão. Passados dias, na escuridão regional do Campo Belo, Atanázio já bem acomodado na sua casa foi surpreendido por batidas na porta:

- Quem é?
-Sou eu.
-Eu quem?
-Aquele, que você tem medo!

Por inocência ou gratidão ao que acreditava, pôs-se num desespero que nem a cruz poderia conter.

-Pois me apareceu o maldito e se apresentou como Aquele, que você tem medo, vestido de capa preta; saía até fogo da goela. Agora que eu acredito.
-Capaz, homem, é coisa da tua cabeça. (rindo)

Mal sabia ele que era "vacalharia" do seu cumpadre. Dias depois, Atanázio numa ânsia de proteger seus bens disse:

-Nas minhas latas de mel, ninguém toca, só quando a morte bater na minha porta.

O cumpadre, novamente para exemplar, vestiu-se de morte.

- Quem é?
-Sou aquele de que você tem medo?
(pausa - Atanázio enfraqueceu, mas pensou, a segunda vez é demais!).
-Mas seu nome?
-Eu sou a morte e vim buscar tuas latas de mel.

Aprendida a lição, hora de roubar o mel.

- blog em recesso -

A partir de amanhã, começarei a publicar literatura e arte de outros autores. Estou querendo pôr nisto o que os outros falam de mim, que é uma outra forma de falar de si sem que te conheçam de perto. Assim, esperem muitos textos de Cecília Meirelles, Clarice Lispector, Hilda Hilst e outros, talvez desconhecidos.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sei quando parto, só não sei quando volto

Uma breve pausa entre um poema e outro e eu e todo o meu passado que não serve pra nada. Quando voltar, quero surpresa e ouvir que estou mudado.

- blog em recesso -

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Dos sentimentais desencontros



Pudera ter feito diferente:
armado arapucas, arrebentado fios,
assassinado coelhos
na frente da sua casa
ou ter repetido culpas pelos desencontros
óbvios depois do sexo?

- Não.



quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Vá lá


Vá lá
que a vida é isso aí.
Num dia se leva paulada
noutro,
lava roupa, cozinha,
arruma a casa,
dá um beijo no marido;
e vem os filhos e estão com fome;
e vem o frio anunciando o inverno
as toucas, os cachecóis, os blusões de lã,
meias grossas, pantufas estranhas
são postos no sol para tirar aquele cheiro entranhado de naftalina;
levanta-se cedo, noutro um pouco mais tarde;
há geada sobre as plantas, algumas delas não resistiram.
Às vezes alguém que sofre não é por opção
nem por destino e nesse destino inclua-se genética e afins,
é por outra coisa que ninguém sabe,
é melancolia aguda
e para essas coisas
vá lá, que a vida é isso aí
e não há mistério nisso.

domingo, 29 de agosto de 2010


Esqueça a modernidade:
o contemporâneo é orgânico.

Não é preciso que se forjem chegadas e partidas,
nem que se coloque o homem dentro
de máquinas de aço e se precipite o processo:
das mãos surgirá naturalmente
o ser instintivo, àquele,
que de pré-histórico se resignou.
___________________________________

Poema também publicado no blog de Sylvia Beirute. Sylvia, muito obrigado pelo gesto.



terça-feira, 24 de agosto de 2010

Quando entendia sua fome



põe aspereza sobre meu corpo; põe lixa.
põe também cacos, facas e espinhos.
põe sua fome e me enterre os dentes
que na boca exaltarei meu regalo.

variável

põe aspereza sobre meu corpo; põe lixa.
põe também cacos, facas e espinhos.
põe sua fome e me coma como antes
que exaustos, estatelávamos a boca em regalo.

variável

prefiro que salpique sal com pimenta
do que me destempere.
-bom é quando lhe colocam com fome no prato.