A herança dos trejeitos

Mais do que isto que me diz,
aquilo que me reparte longe das tuas palavras:
a liberdade coesa que existia
em mim antes do encontro.

- Eu tinha uma liberdade que entendia antes de ti.

Busco-me no espelho,
mas o corpo está fragmentado, e em cada parte que fora lançado pelas ruas,
pedaços de memórias caóticas impossíveis de jungir.

Quero tudo de novo,
os meus 18 anos aos 22
sem remorsos,
sem recalques,
sem teus trejeitos
que emergem em mim
no modo que agora sorrio
e me lavo.

atenção

Entenda minha sensibilidade,
entenda meu choro.
Não é à toa o cigarro acesso na mão esquerda,
o vinho servido, o livro de poemas aberto sobre a mesa.

Entenda minha humanidade,
a minha necessidade de te ler um poema,
de provocar-te estas palavras,
estes desamparos de afeto.

Quando decidi escrever este poema,
tinha os olhos feridos de sal;
o corpo fragmentado e inútil e sofrido
por tanta beleza sendo lançada fora.

(tantas angústias que poderiam ser evitadas,
não fossem as mesquinharias e a falta de vontade
dos homens.)

Entenda minha sensibilidade.
Consola-me, não porque estou fraco, porque ninguém é fraco,
mas porque teu abraço e tuas palavras
restituem minha humanidade.

Fragmento

Então, repito o poema até que não me atinja mais pela simples necessidade de ultrapassá-lo, como se ultrapassa um obstáculo...
porque palavras são muito mais que simples obstáculos, são dragões chineses serpenteando pelas ruas de Pequim em dias de adoração. Todos param, querem-nos destruídos, ardidos em fogo. Empunham tochas intumescidas de querosene, tomam coragem para atear fogo, mas recuam e adoram. Inventam estratagemas, desejam um novo tempo, redefinem os versos, e a memória do poema se firma para longe do esquecimento.

Homossexuais, viadinhos, travestis, facebook e a porra da liberdade de expressão

Que consistência tem o argumento desse tipo de imagem?
É gerado por quem: homossexuais ou heterossexuais?
Qual o compromisso com o ser humano?


No livro A Casa dos Budas Ditosos de João Ubaldo Ribeiro, sua personagem principal expõe sobre as facilidades que só a atualidade pode nos disponibilizar: novas tecnologias de informação; gadgets que nos fazem super-humanos como um ciborgue; possibilidade de convívio globalizado... para no fim, nos descobrirmos como simples humanos repletos de preconceitos e hipocrisias que não nos deixam combater o “atraso”. 

Somos muito atrasados. Que diferença há entre um homossexual, um viadinho e um travesti? Não vejo nenhuma, ou vejo? Claro que vejo: o modo como escolheram viver suas sexualidades, se é que é possível definir como uma escolha, no entanto isto não é propriamente positivo ou negativo. Mas a pergunta que faço é: o que importa tudo isso? Em que momento um homossexual, um viadinho ou um travesti são diferentes essencialmente falando? E por que a necessidade de forjarmos um personagem másculo pré-histórico quando somos apenas seres humanos querendo compartilhar da vida e seguir em frente? 

Os "machões" frequentam a academia, tomam suplementos, ficam sarados, depilam o cuzinho, e à noite procuram sexo fácil com menininhos afeminados ou mesmo travestis, mas enchem a boca para dizer que desaprovam homossexuais “bandeirosos”. No facebook compartilham imagens e pensamentos tão medíocres que só surtem efeito aos mais tolos, porque acham que minimizarão o preconceito que sofrem, subjugando outros comportamentos diferentes dos seus. 

Que mundo é este que estamos formando? A quem estamos querendo convencer? E por que teimamos em dizer aos outros que suas necessidades são inadequadas, e que deveriam seguir por outro caminho para serem melhores aceitos? 

Quanto mais nos instruímos, menos estamos nos tornando melhores como humanos; geramos mais preconceitos e hipocrisias em pró de uma sociedade Kitsch, vazia e atrasada. 

Devemos, sim, combater o atraso, é uma dívida individual para com o todo. Não é questão de tomar partido do que é certo ou errado, é antes uma maneira de conquistarmos respeito como seres humanos e vivermos com ética.

Adaptação

Algo de muito estranho acontecia aos nascituros daquela cidade: quando suas mães davam à luz, seus bebês nasciam sem o braço direito. A população a princípio não se preocupou porque eram casos esparsos, como um boato vindo de longe assumido de “compaixão” e de “Deus me livre”. Foram até visitar a primeira criança sem braço, o filho de Cláudia. 

- Cláudia do céu, como foi acontecer isso? 

Cláudia lamentava por si mesma e por seu filho, pois em decorrência disso, seu marido tinha os abandonado. 

- Deve ser essa sua genética! 

Mas passaram-se quatro anos, e a cidadezinha pequena entrou em polvorosa quando viu suas salas de aula repletas de crianças malformadas, e decidiram que poriam fim à situação. 

Reuniram-se no centro comunitário; falavam ao mesmo tempo, seus corações inflamados saltavam à boca, e suas mentes não comandavam mais: queriam a morte de Cláudia e de seu filho. 

Mataram Cláudia, seu filho, e puseram-se a cruzar novamente. E as crianças sem braços continuavam a nascer. Reuniram-se, os saudáveis, e três dias depois, cientistas, sociólogos e espiritualistas estavam na cidade colhendo amostras, levantando dados, aspergindo bênçãos de cura. 

Os cientistas disseram: 

- Devem-se castrar crianças e pais antes do pior! 

Os sociólogos: 

- Fazemos a cruza com estrangeiros antes do pior! 

Os espiritualistas: 

- Não está mais em nossas mãos! 

Assim, dividiram a cidade em dois grupos: o primeiro grupo de casais que nunca tiveram filhos aguardariam os resultados; o segundo grupo de casais que tiveram filhos com o problema seriam subdivididos numa metade castrada e outra posta em cruza com estrangeiros. 

Mas nada adiantou, a não ser a castração. Os que cruzaram com estrangeiros tiveram filhos sem o braço esquerdo ao invés do direito. A cidade deu-se por vencida. Alguns se sentindo culpados pelas atrocidades cometidas, substituíram a estátua de prefeito pela a de Cláudia e seu filho de mãos dadas. E todo ano homenageavam-nos com flores no dia em que foram assassinados. Os que não se sentiram culpados fugiram ou foram mortos por manterem seus preconceitos. 

Mas dizem até, que alguns se dirigiam à Cláudia pedindo um filho de dois braços. Certo dia ela atendeu, virou uma espécie de santa, causado estranhamento, tinha feito milagre.

Rafael Geremias