segunda-feira, 12 de maio de 2014

Sonho

Meu pai trouxera para dentro da garagem um tigre. Ainda sedado fora posto dentro de uma caixa de sapato. Exuberante como os vistos pela televisão tinha a pelagem convidativa ao toque, os olhos penetrantes, os bigodes altivos. Os bigodes e a sua postura altivos como todo o corpo, contundente em seus movimentos ainda que estivesse sedado. Permaneci encantado. Com meus olhos o percorria, escaneava como um laser, registrando toda a sua ferocidade contida nas garras, nos dentes, que em questão de um minuto e meio, o tempo de retirar a xícara do microondas com leite fervido, depois mais meio minuto para misturar o café solúvel, me surpreenderia pelas costas, me enterraria as garras e com sua bocarra me estraçalharia no chão da cozinha. Entrei em pânico, mas ainda encantado com a possibilidade. A insólita possiblidade de ser estraçalhado por um tigre, no chão da cozinha e não ver o que me comia, mas saber que, o sague e a carne que se exporiam, decorria de um ataque de um tigre feroz, que acordou do seu sono intranquilo, primitivamente esfomeado em busca de carne, era para mim lisonjeador. Serviria a ele, mesmo que petrificado pelo medo. Medo que me fez dizer ao meu pai: 

- É ilegal manter animais exóticos em domicílio. Além do mais, ele é grande e na garagem cabe sequer uma pata dele. E a caixa de sapatos, - soltei um riso -, me admira tê-lo cabido. 

Fora a mesma coisa com o revólver comprado pelo meu pai. Quando o vi, ressaltei minha indignação, a minha moralidade, a minha falta de maturidade em relação à morte. Está carregada, veja. Revólver cromado de punho preto; as balas pareciam de prata e reluziam nos meus olhos, e a verdade é que me encantava com a arma por trás do meu discurso, que a queria em minhas mãos para usá-la. Simplesmente usá-la matando passarinhos ou estilhaçando garrafas sobre os tocos que conformam as cercas do sítio. Me sentiria vivo, com o sangue pulsando numa intensidade desigual, avassaladora.

Então a verdade que eu não queria ouvir, aquilo que é negado por não se ouvir os outros em sua completude. Assimilamos palavras desconexas, as reorganizamos, as ressignificamos ao nosso burlesco mundo jornalístico. 

-Meu filho, não é um tigre! Veja, é apenas um gato e ele está morto! Falei apenas que parecia um tigrezinho de tão parecido. Atropelei-o na vinda pra casa e achei que deveria trazer e enterrá-lo aqui no quintal, ao invés de deixá-lo apodrecer e impregnar a rua com sua fetidez. 

Olhei incrédulo. Era realmente um gato de pelagem semelhante à de um tigre, e morto. Senti em minhas entranhas algo que beirava ao vômito, ao catarro antes do ato de ser escarrado. Entonteci. A minha mente nublou de pensamentos revoltosos contra meu pai, contra mim, contra o gato, o tigre, o revólver e a morte. Numa fuga de ilusões, numa vontade de não ver tudo isso, virei a cabeça para a esquerda e me deparei com um lindo gatinho, parecido com um tigre se alimentando numa tigela com leite branquíssimo, quase plástico de tão branco. Desde então, nunca mais nenhum animal morreu, sequer um parente, até mesmo os que já morreram, levantaram de seus túmulos com as mesmas vestes impecáveis com que foram enterrados e agora convivem comigo, reclusos e felizes por gozarem da vida como imortais.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

terça-feira, 6 de maio de 2014

Amendoim

Escuta o que tenho a lhe dizer.
É pequeno, intenso e intacto
como a um grão de amendoim descascado e não partido.
Imagine só, nossos olhos
sobre o cume do amendoim, sobre a pele cor de dunas,
vislumbrando o tamanho do gérmen,
lá onde as coisas intumescem, lançam raízes,
perfuram a terra
e depois brotam.

Escuta o que tenho a lhe pedir.
Não se assuste porque é pouco e simples.
É só um pouco de companhia, amendoim torrado e cerveja gelada.
Quem sabe eu lhe peça um beijo, um abraço...
Mas não se assuste, porque isso é depois do amendoim,
da cerveja e da muita conversa que teremos.
Que é quando as coisas criam raízes,
perfuram as nossas carnes e brotam.

amor, cebola e alho

Lembrei-me do programa de culinária que víamos
“Gente, vamos refolgar primeiro o alho
e depois a cebola. Por quê?
Porque a cebola solta água e estraga o sabor do alho.”
Imediatamente perguntei:
“Amor, eu sempre fiz certo né?
Sempre refolguei primeiro a cebola e depois o alho?”
Ele responde:
“Sim, amor, você sempre fez certo!”
Verdade ou não,
Ele estava tomando cuidado pra não ferir o meu ego.

Pílulas por vir

Vou a outro psiquiatra,
quem sabe me receite umas
(...)
Ou contato o mercado negro,
Especificamente a minha tia.
Ela sempre descola umas receitas
pretas, rosas, azuis.
pílulas diversas,
flores de todos os tipos
para desabrochar
nos olhos do notívago.

Poesia de Rotina

Poesia de Rotina
muita gente acredita
acredito que sim
também acredito
que há um cotidiano
e dentro do cotidiano
Poesia de Rotina

Outro por vir

de um instante ao outro
torno-me outro
que me comunica à face:
És imediatamente outro agora!
Você não é bipolar, disse meu psiquiatra!
agora o que faço com esse outro incurável?
com esse outro desesperançado de pílulas?

Vou a outro psiquiatra,
quem sabe me receite umas.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

seja você a parte do meu poema

por só nos vermos em partes
é que te rogo
uma ultima mordida
pra te arrancar um último pedaço
do seu céu claro
que desanuviará
o meu poema
com a tua presença

quarta-feira, 30 de abril de 2014

possível primeiro encontro

I

Seria assim:
Eu, constrangido
Ele, sem jeito.
Muito assunto
em poucas palavras.
Ele diria:
- diga alguma coisa?
Eu:
-não sei o que dizer!

II

Sorrio delicadamente
ou beijo o seu rosto?
Aperto a sua mão
ou te arrasto até a minha cama
enquanto me adianto tirando sua roupa?

III

ensaio minha reação
para que,
quando tocar o interfone
subir por minhas escadas
e adentrar por minha porta
eu não te espante com minha gargalhada nervosa
mas que eu te sorria
delicadamente.

IV

Em resposta desesperada à possibilidade de um encontro físico
Faço trejeitos diante do espelho
Tiro as roupas do guarda-roupa
Os sapatos e os cadarços.
Procuro as correntes, os anéis
As pulseiras e suas contas
Provo-as, recombino-as...
Cubro meu corpo com o que de mais belo possuo
Porque é somente o mais belo
Que te desejo dar.


das vivências

Andei meio assim contigo
Meio de inimizade
Olhar cabisbaixo
Vergonha de eu ter um sentimento tão ruim por você
Por coisa pouca
Diga-se pouquíssima coisa
Detalhezinho sem importância

É que eu tava numa
(Tipo amargura ou falta de nicotina?)

Desgostoso e perdido
Entre os meus pensamentos egoístas
De um passado desperdiçado
E um futuro inexistente.



Outra bostinha de poema

Antes que abril vire maio
E alguém diga que eu não disse nada
Sobre o fim de abril
Nem do começo de maio

Ta aí, 
uma bostinha de poema

Totalmente despretensioso
Pra dizer que é só o fim de abril
E o começo de maio
Que se repetirá, repetirá, repetirá...

mas com feriado. 
XD

Uma bostinha de poema, é isso que você é

Gosto de dentes bem escovados
Lápis sempre bem apontado
A lapela bem ajustada
O branco bem alvejado
O preto não desbotado
A barba bem feita
Sem açúcares ou cereais refinados
Tudo integral e moderado
Para não irritar o intestino
(Gases, dores de barriga e uma barriga protuberante
Causam desgosto.)

um trabalho um tanto engajado
Apartamento quitado
Carro e moto na garagem
Um namoro sadio
Sem brigas e sexo moderado
(só com amor)
Festas, só as de família
Não aos cigarros, às bebidas destiladas
Às drogas pesadas
No máximo uma xícara de café preto pra acordar
E um baseadinho nos finais de semana
Pra organizar o pensamento
Também
pros amigos não dizerem
“Careta”

Uma vida bem regrada
Nem muito nem pouco
redundantemente
Só o necessário
Pra não confundir a necessidade
Com o desejo
E me por animalizado
atrás de coisa alheia.

terça-feira, 22 de abril de 2014

desajustados

Um não lugar vaga
Orbita entorno ao meu corpo
E dos outros corpos.
Os outros corpos
Nos seus não lugares devidos

Perdidos
Mas seguidos
Por outros

Alguém diz:
Eu sinto o mesmo!
Sentindo o mesmo
Percebemos o nosso não lugar
Entendido e compartilhado
Tornando-se um lugar

O lugar dos desenquadrados
Dos desajustados

Dos desqualificados

de longe o teu aceno reverbera no meu corpo

Faz de mim risível
A tua boca cheia de dentes
Diante ao meu olhar
Apiedado e mortiço

Acena de longe o teu descaso
A tua amizade por mim

Faz de mim só desesperança
De por ti não me ser realmente visto ou
Tocado
.

tão logo, quero solidão

A solidão aporta como uma intrusa.

Desestabiliza-me.

É sempre uma luta entre a liberdade e a companhia.
A liberdade que me dá tudo
Mas não me dá corpo
O corpo que me dá companhia
E tão logo o desassossego
de não me querer mais em companhia;
nem os cafés-da-manhã, os bombons, os pratos elaborados
os vinhos sofisticados
nem o resto depois do sexo.
Acho tudo um excesso!

Só me penso lavado e deitado
Refestelando-me
Com um travesseiro entre as pernas.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

coordenadas

A primeira porta à esquerda
Fica fácil
Entro sem titubear
O pensamento desanuviado
Não há erro
Ali é o banheiro

Seguindo pelo corredor
Vire à direita
Depois à esquerda
Siga reto
É a terceira porta à direita

Titubeio

O corredor escuro
Bifurcado
Encruzilhada de feitiço
Olhos vendados
Corpo desavisado

A porta à direita
Uma forca sobre o cadafalso
Um grande abismo aberto sob meus pés

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Cena

Peraí que tu é meu

Se virou
me pegou pelo braço
me arrastou d’ali

Tivemos uma noite juntos.

Foi isso.

terça-feira, 8 de abril de 2014

superstição III e IV

III

Imagine se o amor fosse um amuleto?
Um patuá, uma garrafada?
Quartzos rosa
Pesando-lhe os bolsos?

Tudo bobagem.

O que ele acredita
É em boas “vibrações”.

IV

“Coloco calcinha rosa, amor?!”
“Vermelha, paixão?!”
“Põe rosa com lacinho vemelho.
Mergulha no espumante docinho
e vem molhadinha
que dá sorte pra nós!”

contrassenso

De 
tanto 
me 
prevenir


Passo 
a vida 
me 
remediando  

Auto-ajuda-me

Por vaidade
Ressentimento
E orgulho

A gente insiste no verso
E gera frustração

sábado, 5 de abril de 2014

Superstição

II

Saio ferido.

Nunca fui um amuleto
muito menos escudo
e toda vez que lhe digo isso,

(a verdade)

ele me tira do seu pescoço
apela aos santos,
ao olho grego
à figa

só não apela ao nosso amor
porque não acredita nesse
tipo de superstição

segunda-feira, 31 de março de 2014

superstição

O que me diz
É que sou seu amuleto
Sua erva mágica
Sua superstição
“Rafael-contigo-ninguém-pode”
Usa-me como escudo
E no combate me lança contra a espada
Do inimigo

domingo, 30 de março de 2014

O que fazer depois de uma entrevista de emprego?

Nada!
Não faça nada!
Absolutamente nada!
Não estale os dedos,
Nem morda os lábios ou
detenha o telefone em suas mãos.
Muito menos conte aos outros
Que acabou de sair de uma entrevista de emprego.
Fale qualquer coisa,
Que acabou de tomar banho
E se vestiu para dar uma volta na cidade.
Ou, mesmo que pareça nonsense,
Que se vestiu para ficar em casa
Porque está se sentindo de bem consigo mesmo.
Só não manifeste a ansiedade, a sabotadora,
A que lhe consome as bases
E lhe atordoa.

De repente o telefone toca.
Número desconhecido,
Coração, corpo e suor:
“Fui contratado!”
Mas de repente é a morte.
De repente a notícia
De que alguém que você gostava morreu
Durante a manhã
E que não há nada a se fazer.

quarta-feira, 26 de março de 2014

até mais

“Te deixo hoje!
Não vou levar
Saudade nem culpa.
Vou deixar tudo contigo.

Os míseros e os afortunados
E tudo aquilo que,
quando nos faltava palavras,
Chamávamos de ‘amor’
.”