Há sei lá o que me retorcendo por dentro
Tudo se emaranhando num só nó
apertando, esticando, estrangulando
depois frouxa
me deixa na lassidão...
depois volta
aplaco a dor com uma pílula de paracetamol.
Sorrio.
Lembro-me de uma reportagem com o seguinte lead:
“Paracetamol pode ajudar pessoas com depressão”
Absolutamente que sim,
se dói na alma,
procure os gânglios da virilha,
eles estarão inflamados.
sábado, 18 de janeiro de 2014
superego
É por certo que já se vão uns sete anos de deslocamentos absurdos entre o imaginário e o real, e a verdade dilui-se entre tais mundos. Esferas da loucura. Acontece que a gente envelhece e das camadas mais profundas a memória brota. O que com esforço se pensou esquecido, surge inesperadamente para inflar os pulmões de remorso e adoecer o corpo. A memória ressuscitada em sua estrutura cadavérica a nos assombrar ao percorrer e transmutar a casa num desconhecido lugar, onde pisos invertem-se em tetos e os objetos flutuam; a loucura conjurada. O desespero sentido nas coisas. Então, a gente já não sabe o que é verdade e o que é mentira, o que é memória memória, ou memória inventada. 7 anos de dúvida.
Lembro-me de você preparando uma pizza: extrato de tomate, mussarela e orégano, forno e eu esperando ansioso por um pedaço da pizza. O cheiro de orégano queimado espraiava-se pelo apartamento. Na terceira mordida já não queria mais. Fomos pro quarto e você me beijou, e me comeu. Depois dei pro seu amigo, o que jogava vídeo game e de pau duro pediu pra eu sentar e rebolar. Dizia a você: só não deixa “ele” assim, que tem gosto ruim. Tinha vergonha, e me referia a “ele” quando pedia para não tirar a cabecinha do pau mal lavada. Divertíamo-nos muito. Ele me acordava de madrugada, trancávamo-nos no banheiro, a toalha no chão, eu de quatro e ele ajoelhado atrás de mim, ambos quietinhos pra ninguém acordar. Até que em mim tudo imergiu em pecado. Era um grande pecador! Segundo meu pai, antes uma filha puta que um filho viado. Agora eu era viado, e era tão feio ser viado, mas maior era o medo que me descobrissem viado e ninguém gostasse mais de mim. Fui ficando viadinho, quietinho... eles me pediam e eu não dava, mesmo morrendo de vontade e tendo sonhos com eles.
Era tão novo, a repressão tão forte, e o segredo tão necessário, que hoje duvido muito da veracidade. Sempre fui tão imaginativo que tudo isso pode ser criação da minha cabeça, por um dia tê-lo visto se secando após o banho, e disto ter feito matéria para as mais promissoras fantasias sexuais.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Eu
Trégua! É o que dizem os desesperados. Levantam as orações mais escabrosas a Deus, mas por trás de tudo, estão pedindo por trégua. A merecida trégua nas entrelinhas do Pai Nosso. Será que é Deus que é tolo, ou é a gente que é mimado demais? Um ou outro tá errado, e um dos dois é o culpado. Pelo menos segundo a lei dos homens. O homem que nunca pondera nada, pois prefere o julgamento que lhe envaidece. E por isso ando tão envaidecido. Abri a boca e proferi: é você, Deus, o culpado de tudo. Você que é bondoso, mas confabula com o Diabo e deixa que eu sofra.
comunicação
Bonita é a palavra, porque tudo chama e tudo diz.
O resto é nada.
A vida sem ser dita de nada serve.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
diálogo
Me fala:
- Se distraia!
Penso:
- Como se fosse possível!
Como se fosse possível me distrair com outra coisa que não o seu nome.
Como se fosse possível passar o dedo na borda da taça e não me surpreender visionando sobre a superfície do vinho o seu rosto.
Ou,
Controlar o pensamento súbito de que, na abertura da porta, entre você e não outro que me desaponte.
Quando apaixonado, fico deslumbrado, ganho ares de vidente.
- Se distraia!
Penso:
- Como se fosse possível!
Como se fosse possível me distrair com outra coisa que não o seu nome.
Como se fosse possível passar o dedo na borda da taça e não me surpreender visionando sobre a superfície do vinho o seu rosto.
Ou,
Controlar o pensamento súbito de que, na abertura da porta, entre você e não outro que me desaponte.
Quando apaixonado, fico deslumbrado, ganho ares de vidente.
Por uma vida mais honesta
Fiquemos sem ressentimentos porque a vida é breve. Sejamos
amigos, amantes, depois desconhecidos e estranhos por não sabermos mais como
compartilhar. Tenhamos uma vida honesta.
sábado, 21 de dezembro de 2013
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Mortaes
Nem quero seguir depois disso. Vou largar as ideias infundadas de revoluções para me tornar um pouco menos a cada dia. Tornar-me diminuto e acuado como a um animalzinho faminto. Ser outra coisa então que não precise ser explicado, nem dito nem ouvido. Ser um novo surdo mudo, ser um novo debilitado e debilitante, o embotado e embotante, ser coagido e coator.
Diz-me:
- Eu não como laranja, por que você come?
Eu:
Deixo de comer laranjas
e te agrado
e você me agrada
Ninguém de bom grado.
E se um dia nos pensamos vivos
...
Tornamo-nos meros mortais.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
erastas e eromenos
é o fato de eu pensar muito que me torna frígido e mole. Sim, querido, não é problema no corpo, é na cabeça. O pensamento vem assim, do nada, e me toma de um jeito que nem sei como dar fim. Amolece, entende? Fica tudo molinho, molinho. Bate na porta e não entra. Minha amiga disse que sou um socrático. Sim, meu amor, depois da sua explicação, defini-me como um socrático-brocha. Tem espaço para isso na filosofia contemporânea? É claro que tem, e não. Não tem. O que tem é viagra e cyalis e pó da bruxa no círculo da fertilidade. Para todos os problemas do mundo uma pílula no coração. Ou um vinho quente no coração, cantarolava você, Secos e Molhados, enquanto tomava a taça na mão como microfone. Coisas do seu mundo mais temperado que o meu.
seus pensamentos encordoados numa composição linear.
o meu,
dodecafônico e sincopado e progressivo
a cabeça num roque-roque roedura de rato
a loucura de Ana Clara
uma poesia miserável
e
brocha
em estado de aflição
Sob enlevado sentimento da incerteza, a cabeça atordoa-se.
Pior que a incerteza, só a própria certeza do suposto pior.
E o pior é uma manta de carne intoxicada.
Sonhar, depois de tudo, ainda será necessário?
O corpo e a sua sobrevida sem vida.
Adiantarão os ponteiros da morte,
E todos os meus desejos se darão por terra.
Pior que a incerteza, só a própria certeza do suposto pior.
E o pior é uma manta de carne intoxicada.
Sonhar, depois de tudo, ainda será necessário?
O corpo e a sua sobrevida sem vida.
Adiantarão os ponteiros da morte,
E todos os meus desejos se darão por terra.
A verdade fragmentada
Inspirado em Jostein Gaarder in Através do Espelho
Deus me cobra verdades por todos os lados porque é onipresente. Onipresente não no sentido de um ser mitológico enorme de olhos vigilantes açabarcando a Terra e todos os seus minúsculos viventes, mas sim, onipresente porque se fragmenta no corpo daqueles que me cercam e usa dos seus olhos para me vigiar. Se lhe falto com a verdade, na esquina me espera outro fragmento que a extrai a fórceps, e a multiplica pela boca com outros fragmentos.
É que a verdade tem que nascer
E se estilhaçar e se reunir a outros fragmentos.
Mais do que o homem,
é
Deus que busca a unidade.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
um pouco cor anos 90
A cadeira de madeira.
O cachecol envolto no pescoço do encosto da cadeira.
O espírito no passado.
Corpo no presente.
Espírito e corpo desencontrados.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
romantismo anacrônico
Pensei em te agarrar pelas pernas,
ou segurá-lo pelos cabelos,
pelas mãos;
em por as minhas mãos sobre a tua cintura
e te cravar as unhas para não deixá-lo partir.
Mas recobrei a sensatez a tempo
fingindo modismos de compreensão.
ou segurá-lo pelos cabelos,
pelas mãos;
em por as minhas mãos sobre a tua cintura
e te cravar as unhas para não deixá-lo partir.
Mas recobrei a sensatez a tempo
fingindo modismos de compreensão.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
ZRO HRA
Por isso a demora no reconhecimento da face: a sua distância prolongada. Veio até mim e se foi como num rapto.
A tua face igual, mas não reconhecível. Tentei recordar como te chamava antigamente, mas já me é impossível. Cruel esquecimento. E não é proposital, é que a vida me escapa.
A vida me escapa ou me prende de uma vez: um olhar distante tocando os muros de pedra enquanto mastigo como se não fosse sólido o que como e engulo. Não sei aproveitar o que me é dado, tampouco aproveito o que conquisto.
Fiquei dias sem fumar, dias sem beber, dias de zero hora. As horas meditativas em que se sente cada vagaroso minuto e não se sente absolutamente nada. Chorei, dancei, ri! Falei nada, falei tudo, mas nada abrandou, nada arrefeceu!
Surge a ideia de fazer muito. Algo que ocupe todo o meu tempo, para que eu me sirva das horas. Ler? Escrever? Desenhar? Trabalhar? Aprender... vou me formar num verbo infinitivo, nada mais.
A tua face igual, mas não reconhecível. Tentei recordar como te chamava antigamente, mas já me é impossível. Cruel esquecimento. E não é proposital, é que a vida me escapa.
A vida me escapa ou me prende de uma vez: um olhar distante tocando os muros de pedra enquanto mastigo como se não fosse sólido o que como e engulo. Não sei aproveitar o que me é dado, tampouco aproveito o que conquisto.
Fiquei dias sem fumar, dias sem beber, dias de zero hora. As horas meditativas em que se sente cada vagaroso minuto e não se sente absolutamente nada. Chorei, dancei, ri! Falei nada, falei tudo, mas nada abrandou, nada arrefeceu!
Surge a ideia de fazer muito. Algo que ocupe todo o meu tempo, para que eu me sirva das horas. Ler? Escrever? Desenhar? Trabalhar? Aprender... vou me formar num verbo infinitivo, nada mais.
17/junho - a prece
Quanto trabalho,
A que todos nos dispomos
A enfrentar diariamente.
Corremos para todos os lados
Pedindo o descanso que não virá.
Virá?
Férias!
As aguardo como se pudesse
Transformar-me em outro.
Peço para ser outro esta noite antes de dormir,
E que tudo seja bem feito.
E que dê tempo.
Nada me embrutece
O coração arrefecido?!!
Meu Deus, eu poderia por pontos de exclamação e interrogação infinitos... nunca chegaria a uma resposta. Quantas coisas cabem num milésimo de qualquer coisa? ...
Então algo desenozou minhas mágoas
(foi sua presença?),
com seu jeito complicado que entendi como singelo de me fazer simples.
Bom é ser simples.
E esquecer que toda a minha vida está contida nas ranhuras da unha do dedão do pé.
Toda a minha vida visível na superfície da unha.
(foi sua presença que me fez ver?)
Enquanto isto e aqui,
Nada mais me dói, nem me alegra.
Permaneço sereno,
Nada me embrutece.
Meu Deus, eu poderia por pontos de exclamação e interrogação infinitos... nunca chegaria a uma resposta. Quantas coisas cabem num milésimo de qualquer coisa? ...
Então algo desenozou minhas mágoas
(foi sua presença?),
com seu jeito complicado que entendi como singelo de me fazer simples.
Bom é ser simples.
E esquecer que toda a minha vida está contida nas ranhuras da unha do dedão do pé.
Toda a minha vida visível na superfície da unha.
(foi sua presença que me fez ver?)
Enquanto isto e aqui,
Nada mais me dói, nem me alegra.
Permaneço sereno,
Nada me embrutece.
as coisas alheias
Tanta mágoa e rancor coração! Adélia diria, que mal de chagas te comeu coração? Assim mesmo? Pergunto à Adélia?! Eu sei que depois de 30 anos de casamento, seu coração já repartido não reconhece outro caminho senão o caminho do amor que viveu, e agora lhe deixou.
Você me diz:
- O meu controle,
vem do pulso firme da vontade dos outros.
Parece uma poetisa. Rio. Não porque não seja capaz de ser uma poetisa de peso, mas porque é burra, e só sabe falar poesia quando sofre. Mas queria você de volta, fazendo bolo enfeitado, vivendo sua vida, a sua família como antes. Fazia-me tão bem, o seu bolo repartido, dando de comer a nós todos, enquanto falávamos sobre coisas alheias.
Ai, as coisas alheias! Meu amor, volte a ser alheia conosco, volte a ser alheia como nós, com aquele seu cigarro e sua boca sempre aberta pronta pra mandar o rei tomar no cu.
Você me diz:
- O meu controle,
vem do pulso firme da vontade dos outros.
Parece uma poetisa. Rio. Não porque não seja capaz de ser uma poetisa de peso, mas porque é burra, e só sabe falar poesia quando sofre. Mas queria você de volta, fazendo bolo enfeitado, vivendo sua vida, a sua família como antes. Fazia-me tão bem, o seu bolo repartido, dando de comer a nós todos, enquanto falávamos sobre coisas alheias.
Ai, as coisas alheias! Meu amor, volte a ser alheia conosco, volte a ser alheia como nós, com aquele seu cigarro e sua boca sempre aberta pronta pra mandar o rei tomar no cu.
de profundis II
Querem-me todos sem vaidades e com o amor comedido dos anjos, o que sinceramente não me interessa. Nunca tive a aptidão dos santos, nem o simbólico pão e vinho servidos no monastério. A minha mesa sempre foi farta: mel refringente à luz solar, mel escorrendo no canto dos lábios, mel a me molestar na textura dos abusos. Tenho gosto pelo que me molesta, pelo o que sem permissão me arromba e destrói. Depois me recompõe, peça por peça numa nova conformação, conferindo novo sentido ao que eu nunca soube direcionar, e provavelmente nunca saberei. Apenas uma farsa, pois estou sempre fora do racional, resolvendo a minha vida na urgência do sistema excretor. Ao vício hipocondríaco de manter-me num fluxo para evitar constipações. Às vezes tenho vontade de parar.
no tempo dos homens, no tempo de Deus
Pensei: quero viver no tempo de Deus! Então fiquei comovido e doído. Imaginei diversas situações para usar o pensamento tido, e o vi sentado no sofá chorando por um motivo alheio. Sentei ao seu lado e disse: tudo passa, não vivemos no tempo de Deus. Ele me olhou ainda encharcado, não respondeu. Continuou encharcado. O que eu queria mesmo era consolar, macerar a ferida dele com açúcar e afeto.
Era noite então, dormimos por nada.
Só no sonho pode-se viver no tempo de Deus, lá onde os segundos valem a idade da criação.
Entro na sala, e lá está você na mesma posição, rindo com as piadas do programa de televisão. Gosto tanto de vê-lo se divertindo... No tempo de Deus, só há tempo para se divertir! Ele fecha o sorriso, e volta sua atenção ao programa. Devo ser maluco por essas coisas! Ora querer viver no tempo de Deus, ser eterno e feliz; deve cansar ser feliz eternamente e estar consciente disso. Melhor é ser louco para viver no tempo de Deus.
II
Era noite então, dormimos por nada.
Só no sonho pode-se viver no tempo de Deus, lá onde os segundos valem a idade da criação.
Entro na sala, e lá está você na mesma posição, rindo com as piadas do programa de televisão. Gosto tanto de vê-lo se divertindo... No tempo de Deus, só há tempo para se divertir! Ele fecha o sorriso, e volta sua atenção ao programa. Devo ser maluco por essas coisas! Ora querer viver no tempo de Deus, ser eterno e feliz; deve cansar ser feliz eternamente e estar consciente disso. Melhor é ser louco para viver no tempo de Deus.
II
Gosto do efêmero, o que Deus não entende, mas permite. O cigarro tragado em cinco minutos, a tapa e a sua ardência fugaz; só não é efêmero quando é no rosto e com intenção de machucar, como a tapa que você me deu dia desses num restaurante. Não sou tua puta. E a tapa ardeu no tempo de Deus, e agora vive no meu inconsciente latejando, servindo como pretexto para o meu choro fácil.
Até minutos atrás, pulávamos as poças d’água e nos divertíamos com isso. Agora já é lembrança, e se recontada muitas vezes, perde-se a veracidade, porque ganha ares de ficção, e vira tudo mentira ou se dilui em cada palavra: as poças, um guarda-chuva, malas e o tempo de Deus.
III
III
E o tempo de Deus é diferente do meu tempo? Pergunta de resposta tão óbvia. Se eu pergunto é porque realmente preciso entender isso, porque realmente dei com a testa nela, e ela não era permeável.
sábado, 20 de julho de 2013
Uma forma para mim
II
Constato que sempre vi Otávio por fora, como a um objeto que se permite ser olhado e analisado em todas as suas especificidades; que se permite correrem-lhe os dedos por cada ranhura, despudorado de ser comprado por motivos errados. Muito mais fácil o modo que entendo Otávio, e também, o único jeito que aprendi a vê-lo: deslumbrada! Com os olhos sempre enuviados e comovidos diante dele, do seu escuríssimo pelo do peito sendo raspado em frente ao espelho, a torneira semiaberta levando pelo e espuma.
Otávio nunca mudou sua forma para ser o que desejava, sempre foi homem em toda sua capacidade de amar, enquanto eu mutilei-me diversas vezes para ser compatível nos gestos e nos gostos, para ser refinada, para ser amável e acolhida.
Constato que sempre vi Otávio por fora, como a um objeto que se permite ser olhado e analisado em todas as suas especificidades; que se permite correrem-lhe os dedos por cada ranhura, despudorado de ser comprado por motivos errados. Muito mais fácil o modo que entendo Otávio, e também, o único jeito que aprendi a vê-lo: deslumbrada! Com os olhos sempre enuviados e comovidos diante dele, do seu escuríssimo pelo do peito sendo raspado em frente ao espelho, a torneira semiaberta levando pelo e espuma.
Otávio nunca mudou sua forma para ser o que desejava, sempre foi homem em toda sua capacidade de amar, enquanto eu mutilei-me diversas vezes para ser compatível nos gestos e nos gostos, para ser refinada, para ser amável e acolhida.
Uma forma para mim
I
Uma forma para mim, antes ou depois do amor? Como me contar, me formatar, e ser diante dos outros um avatar sorridente, voando ora por territórios áridos, ora por paisagens verdejantes e transbordantes de vida? “Só falar por falar e ir dizendo por dizer”, é o que falaria minha mãe. “Não se preocupe, que a vida dá um jeito de te contar; de ir te tecendo e destecendo, de ir te contradizendo e te chamando de mentiroso na frente de todos!”. Verdade mãezinha, tão verdade que a forma que me conto, é a última forma, a forma efêmera em que Otávio me moldou.
Uma forma para mim, antes ou depois do amor? Como me contar, me formatar, e ser diante dos outros um avatar sorridente, voando ora por territórios áridos, ora por paisagens verdejantes e transbordantes de vida? “Só falar por falar e ir dizendo por dizer”, é o que falaria minha mãe. “Não se preocupe, que a vida dá um jeito de te contar; de ir te tecendo e destecendo, de ir te contradizendo e te chamando de mentiroso na frente de todos!”. Verdade mãezinha, tão verdade que a forma que me conto, é a última forma, a forma efêmera em que Otávio me moldou.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Uma forma para Otávio
VIII
Na realidade, tenho inveja do passado de Otávio, e do presente e do seu futuro. Ando tão insegura, que se pudesse lhe cortava o pênis, e costurava sua boca para não ouvir mais ele falar das coisas que não dizem respeito a mim. Sinto-me tão egoísta às vezes... mas sei que em algum lugar do mundo, como numa rede de coincidências, alguém remói a mesma mágoa sem dar à face a expressão da dor sentida. Se lhe perguntam, “o que houve?”, responde com um sorriso falsificado de quem por nada passa.
É que Otávio tem me feito sofrer, e muito. Se eu desfaleço, não me junta mais nos braços, não me sustenta em seus músculos, seu amor por mim tem se tornado cruel e feio, o seu olhar, impiedoso como o brilho esmeraldino da mosca que pousa para contaminar o mais belo doce confeitado. Desconfio que Otávio me traia.
Na realidade, tenho inveja do passado de Otávio, e do presente e do seu futuro. Ando tão insegura, que se pudesse lhe cortava o pênis, e costurava sua boca para não ouvir mais ele falar das coisas que não dizem respeito a mim. Sinto-me tão egoísta às vezes... mas sei que em algum lugar do mundo, como numa rede de coincidências, alguém remói a mesma mágoa sem dar à face a expressão da dor sentida. Se lhe perguntam, “o que houve?”, responde com um sorriso falsificado de quem por nada passa.
É que Otávio tem me feito sofrer, e muito. Se eu desfaleço, não me junta mais nos braços, não me sustenta em seus músculos, seu amor por mim tem se tornado cruel e feio, o seu olhar, impiedoso como o brilho esmeraldino da mosca que pousa para contaminar o mais belo doce confeitado. Desconfio que Otávio me traia.
Uma forma para Otávio
VII
Por onde trilharam os pés de Otávio, antes de me conhecer? As queloides em seus calcanhares feitas pelo sapato novo mal adaptado ao seu jeito de andar acompanham-no ainda. Tenho vontade de beijá-las e embebê-las com minha saliva matinal, esperando que sumam num gesto de comiseração. Tenho comigo que é injusto Otávio ter adquirido marcas tão pesadas. É como as linhas que surgem na palma da mão, interceptando a linha da vida, o monte de Vênus, destituindo de força a felicidade que lhe fora profetizado ainda no berço.
Por onde trilharam os pés de Otávio, antes de me conhecer? As queloides em seus calcanhares feitas pelo sapato novo mal adaptado ao seu jeito de andar acompanham-no ainda. Tenho vontade de beijá-las e embebê-las com minha saliva matinal, esperando que sumam num gesto de comiseração. Tenho comigo que é injusto Otávio ter adquirido marcas tão pesadas. É como as linhas que surgem na palma da mão, interceptando a linha da vida, o monte de Vênus, destituindo de força a felicidade que lhe fora profetizado ainda no berço.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Uma forma para Otávio
Fico sensibilizada diante de Otávio, às vezes choro ou solto risos despropositais; parecem grunhidos de algum animal distante na floresta. Como uma gata manhosa, refestelo-me entre suas pernas; ele coloca a mão por debaixo da mesa, acaricia-me a cabeça enquanto continua lendo o jornal. Ele me observa. Depois, troca a água e põe mais ração. Fico saciada, mas perpetuo meu miado. Encho os ouvidos do Otávio com o meu intermitente miado para chamar sua atenção. Ele me cobra: o que foi minha gatinha? Novamente: eu já te dei comida e água! Então: “Suma daqui!”. Saio com meu rabinho entre as pernas. Deito em outro lugar.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
(Medo que me ouça e tudo se transforme numa verborragia inútil.).
Boa parte disso deve-se a uma infecção bacteriana na garganta. “Placas enormes, deveria ver...” ou enfiar o dedo para sentir! “Parecem-se com o exército da paz, só que trabalhando para me derrubar...” filhas da puta!
Outra parte é o que ante o lábio cerrado me sabota.
Todo meu pensamento esbarra no teu nome,
que é a minha prece
na minha mente sibilada na devoção
que me compraz.
- A paixão é a que grita
O amor só precisa de silêncio.
Então, os estágios do beijo:
Volto ao
meu lábio cerrado ante o seu entreaberto
teu perscrutado olhar ante o meu buliçoso
a tua aproximação decidida ante a minha espera lânguida
teu nome premente entre as minhas coxas
também é o meu castigo no teu protelar insistente
de só me dar amor em conta-gotas
grito:
- se não por amor, por piedade!
Outra parte é o que ante o lábio cerrado me sabota.
Todo meu pensamento esbarra no teu nome,
que é a minha prece
na minha mente sibilada na devoção
que me compraz.
- A paixão é a que grita
O amor só precisa de silêncio.
Então, os estágios do beijo:
Volto ao
meu lábio cerrado ante o seu entreaberto
teu perscrutado olhar ante o meu buliçoso
a tua aproximação decidida ante a minha espera lânguida
teu nome premente entre as minhas coxas
também é o meu castigo no teu protelar insistente
de só me dar amor em conta-gotas
grito:
- se não por amor, por piedade!
domingo, 30 de junho de 2013
Poema
Escondi-me atrás da prece,
Como atrás de um escudo
Que se empunha diante e contra
A espada reluzente;
Como atrás de uma estante
Que se empurra para dificultar
A entrada do psicopata num filme de
(suspense).
A minha terceira perna brota novamente,
Forte o suficiente para derrubar paredes a pontapés.
Como atrás de um escudo
Que se empunha diante e contra
A espada reluzente;
Como atrás de uma estante
Que se empurra para dificultar
A entrada do psicopata num filme de
(suspense).
A minha terceira perna brota novamente,
Forte o suficiente para derrubar paredes a pontapés.
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