sábado, 18 de agosto de 2012

Os homens que nunca existiram

O mais difícil era dizer a ele que o que ele vivia não existia, era invenção. Ele não sentia o que realmente sentia e nem amava o que ele dizia amar: sofria desnecessariamente.

Todo aquele desequilíbrio, aquelas noites de cigarros acesos, taças de vinho sempre pela metade, os beijos e promessas de eternidade, nunca aconteceram, ou eram meras imagens das drogas que usava para dormir, mas sim, pequenas ilusões.

Diz-me:

-E de que serve a realidade quando se ama?

Não sei te responder. Como não sei te responder se sou mais feliz contigo ou com os outros. Quando tudo, toda a minha personalidade se desfaz num gozo em que as minhas pernas se tornam catatônicas, e dentro do seu mundo, meus lábios mexem-se involuntariamente.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Vizinho Eu

Ao abrir a porta, agora pela manhã, vejo no chão uma folha A4 dobrada como as atas que mensalmente são entregues a cada condômino. Não me demoro muito para juntá-la, enquanto vou deixando pela casa a pasta, os sapatos, a roupa, dirigindo-me ao computador. Sento para ler. Susto: algum vizinho intrometido me descrevia como um personagem, e tinha a cara de pau de me chamar de putinha-que-deu-a-noite-inteira. 

Desconfio de quem seja, e me intimido: ser descoberto dessa forma é como ter que abandonar tudo e ter que se revestir com outra casca.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Palavrório de três versos

Porque estou sempre lá, no futuro.
Por isso largo-me no vazio
que habitam os desolados.

(variação)

Porque estás sempre aqui, no presente-comigo,
que te compartilho no vazio
que habito desolado.

Palavrório de três versos

Antecipo-me no momento em que anuncia sua vinda.
A partir de então, viver é a espera aflitiva
ante a chegada e a partida do seu corpo.

sábado, 7 de julho de 2012

Palavrório de três versos

Matei um mosquito com o livro do Mauel Bandeira.
Não, isto não é falta de respeito com ele,
é a vida acontecendo enquanto leio.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

- Se soubesse que isso lhe machucava, não teria feito!

Éramos duas crianças. O que tínhamos em comum? Os bolsos cheios de quartzos rosa. 

Diariamente arrastávamo-nos pela cidade até o lago para arremessá-las na superfície e vê-las quicar. Depois, mergulhávamos para reavê-las; beijávamo-nos e nos esfregávamos do jeito que vimos, quando descíamos a escada e papai masturbava-se assistindo a um filme pornô. 

Outras vezes, atirávamos nos telhados das casas e saíamos correndo para nos esconder em algum canto e rir dos desaforos que nos praguejavam. Depois, beijávamo-nos e nos esfregávamos, e voltávamos para casa, satisfeitos de algo que fazíamos sem compreender.

Um dia, arremessei um quartzo na cabeça dela, ela pôs a mão onde estava doendo. Continuei a atirar até esvaziar os bolsos. Ela tentava se desviar chorando como um animalzinho que lhe pisam as patas, enquanto eu gargalhava como um grande sacana.  Abracei-a, beijei-a e me esfreguei nela como sempre fazia. 

Durante meses as coisas aconteceram assim até que:

- Não quero mais brincar contigo! 

Ela disse isso com a cabeça posta na fresta da porta. Logo veio sua mãe e a retirou de lá como se eu tivesse feito algo de ruim. 

Bati à porta. Cabisbaixo e com o horror da frase persistindo em minha cabeça, disse a ela:

-Eu deixo você me jogar pedras, se você quiser. Só volte a brincar comigo!

Ela não hesitou. Carregou os bolsos e me levou até um terreno baldio próximo a casa dela, aonde me jogou os quartzos que me atingiam dolorosamente a ponto de me fazer chorar, de implorar que parasse; que isto não estava certo, que não era assim que eu a amava.

- Se soubesse que isso lhe machucava, não teria feito!

Ria de mim, ria porque agora se equiparava a mim, e eu, rebaixava-me ao animalzinho das patas espezinhadas, miando de dor; miavam as feridas que pediam pela língua dela e o cuidado de suas mãos delicadas. Mas, ela virou as costas, enquanto eu ainda estava no chão, e foi embora de fato.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Quintanista

Vi quando a menina disse ao outro menino:

“Não quero mais brincar contigo!”

O menino não entendeu o porquê, cabisbaixo e com a expressão de desolamento foi para casa. Tive pena do garoto, nunca mais o vi na rua desde então. Decerto, fora para ele um abandono desleal. É como dizer: eu não te amo mais, vou embora! A mala pronta em algum canto qualquer. A saída repentina. A morte repentina. Todo um mundo criado sendo desconstruído pela fugacidade da vontade. 

Sim, porque se morre diversas vezes até a morte física. Morre-se a cada não, a cada insustentabilidade que me põe em fuga em busca de refúgio na próxima novidade que me matará novamente e novamente. E tudo fica mal resolvido nessa vida, mesmo a certeza de “eu não te amo mais, vou embora” é apenas uma meia certeza.

Imagino o que a menina fez com ele quando disse isso, quantas coisas passaram por sua mente e quantas culpas lhe vieram dizer que sempre esteve fazendo coisas que a desagradavam. Até mesmo os sorrisos que fez surgir na face dela, vêm lhe cobrar o infortúnio:

-Então todos os risos não eram para mim?

Ah, porque há sempre dívidas tolas que nunca poderão ser pagas, e o tempo está aí, quando não consegue quitá-las, arrefece-as na lembrança.

o oco cheio de vazio

é que não posso ser porque não me pertenço não sou de mim mesmo: nem o corpo ou a fala nem o membro, nem a língua   nem o próprio gozo apree...