Baby Alive visita o psicólogo

Sento. Há um copo d’água e as bonecas da minha irmã. As bonecas me olham inquisidoras, mas também silentes. Que é que tem? Falo pro bebê sentado que, cabisbaixo e com a boca resignada na mesma expressão plástica, parece distante e dissolvido em seu mundo. Mas sem dúvida, o bebê mais interessante de toda a estante, pois os outros mantêm aquela expressão de boca semiaberta com a língua como se fosse falar algo ou receber um pirulito ou outra coisa para chupar. Gosto da introspecção dos outros quando estou introspectiva, do contrário, acho todos uns metidos e arrogantes. Até as bonecas sorridentes me causam repulsa. Meu tio me disse que eu era do tipo de gente que achava que quem não está a meu favor, é contra mim. Mentiroso! Mesmo que fosse verdade, o que eu sou ou deixo de ser só interessa a mim, e toda opinião externa será suplantada antes que me tome e eu acabe chorando. Odeio o choro e por vezes o riso também, principalmente o riso do outro que me parece mais verdadeiro que o meu, que quando mostra os dentes realmente se rejubila como se atingisse alguma graça divina. Enquanto ao choro do outro, finjo ter compaixão, mas por dentro fico feliz que não é comigo, porque só eu tenho direito ao regozijo, porque sou muito especial, todo mundo diz isso. Meu pai e minha mãe sempre me disseram que eu era a princesinha deles. Muito acertadamente me ensinaram a limpar a bunda comprando uma Baby Alive no troninho, só não entendia o porquê das fraldas se ela tinha um troninho como eu. Abro um sorriso lembrando-me da minha infância feliz com meus primos. Todos sendo príncipes e princesas para seus pais. Na verdade eu só queria que me entendessem, porque eu sou diferente, mas parece que ninguém tá nem aí.

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Rafael Geremias