Oração - Teoria das colheres

Deus,

por clemência,
dê-me novas colheres
para poder desperdiçá-las.

Mortaes


Nem quero seguir depois disso. Vou largar as ideias infundadas de revoluções para me tornar um pouco menos a cada dia. Tornar-me diminuto e acuado como a um animalzinho faminto. Ser outra coisa então que não precise ser explicado, nem dito nem ouvido. Ser um novo surdo mudo, ser um novo debilitado e debilitante, o embotado e embotante, ser coagido e coator.

Diz-me:

- Eu não como laranja, por que você come?

Eu:

Deixo de comer laranjas
e te agrado
e você me agrada
Ninguém de bom grado.
E se um dia nos pensamos vivos
...
Tornamo-nos meros mortais.

Palavrório de três versos

quem não se afoga
vira careta
vira nossos pais

erastas e eromenos

é o fato de eu pensar muito que me torna frígido e mole. Sim, querido, não é problema no corpo, é na cabeça. O pensamento vem assim, do nada, e me toma de um jeito que nem sei como dar fim. Amolece, entende? Fica tudo molinho, molinho. Bate na porta e não entra. Minha amiga disse que sou um socrático. Sim, meu amor, depois da sua explicação, defini-me como um socrático-brocha. Tem espaço para isso na filosofia contemporânea? É claro que tem, e não. Não tem. O que tem é viagra e cyalis e pó da bruxa no círculo da fertilidade. Para todos os problemas do mundo uma pílula no coração. Ou um vinho quente no coração, cantarolava você, Secos e Molhados, enquanto tomava a taça na mão como microfone. Coisas do seu mundo mais temperado que o meu. 

seus pensamentos encordoados numa composição linear.
o meu,
dodecafônico e sincopado e progressivo
a cabeça num roque-roque roedura de rato
a loucura de Ana Clara
uma poesia miserável
e
brocha

 

em estado de aflição

Sob enlevado sentimento da incerteza, a cabeça atordoa-se.
Pior que a incerteza, só a própria certeza do suposto pior.
E o pior é uma manta de carne intoxicada.
Sonhar, depois de tudo, ainda será necessário?
O corpo e a sua sobrevida sem vida.
Adiantarão os ponteiros da morte,
E todos os meus desejos se darão por terra.

A verdade fragmentada

Inspirado em Jostein Gaarder in Através do Espelho
 
Deus me cobra verdades por todos os lados porque é onipresente. Onipresente não no sentido de um ser mitológico enorme de olhos vigilantes açabarcando a Terra e todos os seus minúsculos viventes, mas sim, onipresente porque se fragmenta no corpo daqueles que me cercam e usa dos seus olhos para me vigiar. Se lhe falto com a verdade, na esquina me espera outro fragmento que a extrai a fórceps, e a multiplica pela boca com outros fragmentos.

É que a verdade tem que nascer
E se estilhaçar e se reunir a outros fragmentos.
Mais do que o homem,
é
Deus que busca a unidade.

um pouco cor anos 90


A cadeira de madeira.

O cachecol envolto no pescoço do encosto da cadeira.

O espírito no passado.

Corpo no presente.

Espírito e corpo desencontrados.

 

romantismo anacrônico

Pensei em te agarrar pelas pernas,
ou segurá-lo pelos cabelos,
pelas mãos;
em por as minhas mãos sobre a tua cintura
e te cravar as unhas para não deixá-lo partir.
Mas recobrei a sensatez a tempo
fingindo modismos de compreensão.

ZRO HRA

Por isso a demora no reconhecimento da face: a sua distância prolongada. Veio até mim e se foi como num rapto. 

A tua face igual, mas não reconhecível. Tentei recordar como te chamava antigamente, mas já me é impossível. Cruel esquecimento. E não é proposital, é que a vida me escapa.

A vida me escapa ou me prende de uma vez: um olhar distante tocando os muros de pedra enquanto mastigo como se não fosse sólido o que como e engulo. Não sei aproveitar o que me é dado, tampouco aproveito o que conquisto. 

Fiquei dias sem fumar, dias sem beber, dias de zero hora. As horas meditativas em que se sente cada vagaroso minuto e não se sente absolutamente nada. Chorei, dancei, ri! Falei nada, falei tudo, mas nada abrandou, nada arrefeceu!

Surge a ideia de fazer muito. Algo que ocupe todo o meu tempo, para que eu me sirva das horas. Ler? Escrever? Desenhar? Trabalhar? Aprender... vou me formar num verbo infinitivo, nada mais.

17/junho - a prece


Quanto trabalho,
A que todos nos dispomos
A enfrentar diariamente.
Corremos para todos os lados
Pedindo o descanso que não virá.

Virá?

Férias!
As aguardo como se pudesse
Transformar-me em outro.
Peço para ser outro esta noite antes de dormir,
E que tudo seja bem feito.
E que dê tempo.

Por quê?

Porque a alegria é tão grande,
e sentir apenas não basta,
que faz-se preciso dizer...

Nada me embrutece

O coração arrefecido?!!
Meu Deus, eu poderia por pontos de exclamação e interrogação infinitos... nunca chegaria a uma resposta. Quantas coisas cabem num milésimo de qualquer coisa? ...
Então algo desenozou minhas mágoas

(foi sua presença?),
com seu jeito complicado que entendi como singelo de me fazer simples.
Bom é ser simples.
E esquecer que toda a minha vida está contida nas ranhuras da unha do dedão do pé.
Toda a minha vida visível na superfície da unha.

(foi sua presença que me fez ver?)
Enquanto isto e aqui,
Nada mais me dói, nem me alegra.
Permaneço sereno,
Nada me embrutece.

as coisas alheias

Tanta mágoa e rancor coração! Adélia diria, que mal de chagas te comeu coração? Assim mesmo? Pergunto à Adélia?! Eu sei que depois de 30 anos de casamento, seu coração já repartido não reconhece outro caminho senão o caminho do amor que viveu, e agora lhe deixou. 

Você me diz:

- O meu controle,
vem do pulso firme da vontade dos outros.

Parece uma poetisa. Rio. Não porque não seja capaz de ser uma poetisa de peso, mas porque é burra, e só sabe falar poesia quando sofre. Mas queria você de volta, fazendo bolo enfeitado, vivendo sua vida, a sua família como antes. Fazia-me tão bem, o seu bolo repartido, dando de comer a nós todos, enquanto falávamos sobre coisas alheias.

Ai, as coisas alheias! Meu amor, volte a ser alheia conosco, volte a ser alheia como nós, com aquele seu cigarro e sua boca sempre aberta pronta pra mandar o rei tomar no cu.

de profundis II

Querem-me todos sem vaidades e com o amor comedido dos anjos, o que sinceramente não me interessa. Nunca tive a aptidão dos santos, nem o simbólico pão e vinho servidos no monastério. A minha mesa sempre foi farta: mel refringente à luz solar, mel escorrendo no canto dos lábios, mel a me molestar na textura dos abusos. Tenho gosto pelo que me molesta, pelo o que sem permissão me arromba e destrói. Depois me recompõe, peça por peça numa nova conformação, conferindo novo sentido ao que eu nunca soube direcionar, e provavelmente nunca saberei. Apenas uma farsa, pois estou sempre fora do racional, resolvendo a minha vida na urgência do sistema excretor. Ao vício hipocondríaco de manter-me num fluxo para evitar constipações. Às vezes tenho vontade de parar.

no tempo dos homens, no tempo de Deus

Pensei: quero viver no tempo de Deus! Então fiquei comovido e doído. Imaginei diversas situações para usar o pensamento tido, e o vi sentado no sofá chorando por um motivo alheio. Sentei ao seu lado e disse: tudo passa, não vivemos no tempo de Deus. Ele me olhou ainda encharcado, não respondeu. Continuou encharcado. O que eu queria mesmo era consolar, macerar a ferida dele com açúcar e afeto.

Era noite então, dormimos por nada.

Só no sonho pode-se viver no tempo de Deus, lá onde os segundos valem a idade da criação.

Entro na sala, e lá está você na mesma posição, rindo com as piadas do programa de televisão. Gosto tanto de vê-lo se divertindo... No tempo de Deus, só há tempo para se divertir! Ele fecha o sorriso, e volta sua atenção ao programa. Devo ser maluco por essas coisas! Ora querer viver no tempo de Deus, ser eterno e feliz; deve cansar ser feliz eternamente e estar consciente disso. Melhor é ser louco para viver no tempo de Deus.

                 II
Gosto do efêmero, o que Deus não entende, mas permite. O cigarro tragado em cinco minutos, a tapa e a sua ardência fugaz; só não é efêmero quando é no rosto e com intenção de machucar, como a tapa que você me deu dia desses num restaurante. Não sou tua puta. E a tapa ardeu no tempo de Deus, e agora vive no meu inconsciente latejando, servindo como pretexto para o meu choro fácil. 
Até minutos atrás, pulávamos as poças d’água e nos divertíamos com isso. Agora já é lembrança, e se recontada muitas vezes, perde-se a veracidade, porque ganha ares de ficção, e vira tudo mentira ou se dilui em cada palavra: as poças, um guarda-chuva, malas e o tempo de Deus.


                III
E o tempo de Deus é diferente do meu tempo? Pergunta de resposta tão óbvia. Se eu pergunto é porque realmente preciso entender isso, porque realmente dei com a testa nela, e ela não era permeável.

                               

Uma forma para mim

II

Constato que sempre vi Otávio por fora, como a um objeto que se permite ser olhado e analisado em todas as suas especificidades; que se permite correrem-lhe os dedos por cada ranhura, despudorado de ser comprado por motivos errados. Muito mais fácil o modo que entendo Otávio, e também, o único jeito que aprendi a vê-lo: deslumbrada! Com os olhos sempre enuviados e comovidos diante dele, do seu escuríssimo pelo do peito sendo raspado em frente ao espelho, a torneira semiaberta levando pelo e espuma.  

Otávio nunca mudou sua forma para ser o que desejava, sempre foi homem em toda sua capacidade de amar, enquanto eu mutilei-me diversas vezes para ser compatível nos gestos e nos gostos, para ser refinada, para ser amável e acolhida.

Uma forma para mim

I

Uma forma para mim, antes ou depois do amor? Como me contar, me formatar, e ser diante dos outros um avatar sorridente, voando ora por territórios áridos, ora por paisagens verdejantes e transbordantes de vida? “Só falar por falar e ir dizendo por dizer”, é o que falaria minha mãe. “Não se preocupe, que a vida dá um jeito de te contar; de ir te tecendo e destecendo, de ir te contradizendo e te chamando de mentiroso na frente de todos!”. Verdade mãezinha, tão verdade que a forma que me conto, é a última forma, a forma efêmera em que Otávio me moldou.

Uma forma para Otávio

VIII

Na realidade, tenho inveja do passado de Otávio, e do presente e do seu futuro. Ando tão insegura, que se pudesse lhe cortava o pênis, e costurava sua boca para não ouvir mais ele falar das coisas que não dizem respeito a mim. Sinto-me tão egoísta às vezes... mas sei que em algum lugar do mundo, como numa rede de coincidências, alguém remói a mesma mágoa sem dar à face a expressão da dor sentida. Se lhe perguntam, “o que houve?”, responde com um sorriso falsificado de quem por nada passa.

É que Otávio tem me feito sofrer, e muito. Se eu desfaleço, não me junta mais nos braços, não me sustenta em seus músculos, seu amor por mim tem se tornado cruel e feio, o seu olhar, impiedoso como o brilho esmeraldino da mosca que pousa para contaminar o mais belo doce confeitado. Desconfio que Otávio me traia.

 

Uma forma para Otávio

VII

Por onde trilharam os pés de Otávio, antes de me conhecer? As queloides em seus calcanhares feitas pelo sapato novo mal adaptado ao seu jeito de andar acompanham-no ainda. Tenho vontade de beijá-las e embebê-las com minha saliva matinal, esperando que sumam num gesto de comiseração. Tenho comigo que é injusto Otávio ter adquirido marcas tão pesadas. É como as linhas que surgem na palma da mão, interceptando a linha da vida, o monte de Vênus, destituindo de força a felicidade que lhe fora profetizado ainda no berço.

Uma forma para Otávio

Fico sensibilizada diante de Otávio, às vezes choro ou solto risos despropositais; parecem grunhidos de algum animal distante na floresta. Como uma gata manhosa, refestelo-me entre suas pernas; ele coloca a mão por debaixo da mesa, acaricia-me a cabeça enquanto continua lendo o jornal. Ele me observa. Depois, troca a água e põe mais ração. Fico saciada, mas perpetuo meu miado. Encho os ouvidos do Otávio com o meu intermitente miado para chamar sua atenção. Ele me cobra: o que foi minha gatinha? Novamente: eu já te dei comida e água! Então: “Suma daqui!”. Saio com meu rabinho entre as pernas. Deito em outro lugar.

(Medo que me ouça e tudo se transforme numa verborragia inútil.).

Boa parte disso deve-se a uma infecção bacteriana na garganta. “Placas enormes, deveria ver...” ou enfiar o dedo para sentir! “Parecem-se com o exército da paz, só que trabalhando para me derrubar...” filhas da puta!

Outra parte é o que ante o lábio cerrado me sabota.
Todo meu pensamento esbarra no teu nome,
que é a minha prece
na minha mente sibilada na devoção
que me compraz.

- A paixão é a que grita
O amor só precisa de silêncio.

Então, os estágios do beijo:

Volto ao
meu lábio cerrado ante o seu entreaberto
teu perscrutado olhar ante o meu buliçoso 
a tua aproximação decidida ante a minha espera lânguida

teu nome premente entre as minhas coxas
também é o meu castigo no teu protelar insistente
de só me dar amor em conta-gotas

grito:

- se não por amor, por piedade!
 

Paráfrase W.

- Ao vencedor, tuas orelhas vermelhas e quentes!

Poema

Escondi-me atrás da prece,
Como atrás de um escudo
Que se empunha diante e contra
A espada reluzente;
Como atrás de uma estante
Que se empurra para dificultar
A entrada do psicopata num filme de
(suspense).
A minha terceira perna brota novamente,
Forte o suficiente para derrubar paredes a pontapés.

Uma forma para Otávio

V

Quero falar das mãos de Otávio. As mãos de Otávio são angulosas, de dorso trapezoidal e veias saltadas. Sempre que as move, vejo o pulsar delas e o calor que delas dissipa. Mãos com dedos longos e de pelos adensados sobre cada falange. Sua palma desenha um M perfeito, o que significaria para a cigana um homem de personalidade forte. Seja lá o que for “um homem de personalidade forte”. Interessa-me mesmo o próximo movimento, o próximo objeto que tocará e o que com ele fará. Meus olhos estalam para aumentar a atenção, a ponta da minha língua lança-se para umedecer os lábios desejando ansiosa que o próximo objeto seja meu rosto e todo o resto do meu corpo.

Uma forma para Otávio

IV

Não que o fato de eu ser mulher me impeça de fazer isso. Abrir compotas também é trabalho de mulher. Mas perto dele, gosto de me sentir frágil, para lhe pedir esses favores bobos. Mas Otávio entende, e gosta disso. Abre a compota de figos, entrega-me o vidro com um beijo me chamando de “minha mulher”. Vivemos em regozijo.

Uma forma para Otávio

III

Ele me liberta. Otávio me liberta porque já é livre. Otávio é o tipo de homem que nunca fora mantido em cativeiro, nem nunca fora vítima dos limites de seu próprio corpo. Otávio usa seu corpo como os livres pensadores o usam, como instrumento de vida. Fortifica os músculos para carregar as minhas sacolas, para trocar os móveis de lugar e fazer da nossa casa um pouco mais agradável a cada dia.

Uma forma para Otávio

II

Otávio nunca é descrente ou tem indecisões, no máximo fica em silêncio com as sobrancelhas espessas caídas, segurando o queixo com a mão direita enquanto escuta extremamente concentrado Rachmaninoff. Nunca entendi sua predileção por Rachmaninoff. Mas que importa, ele também nunca deve ter entendido o porquê dos meus gostos, e isto nunca influenciou no jeito em que me acariciava. Sempre com gestos pertinentes feitos para aflorar sobre a minha pele arrepios e outros desejos de corpo. Então, Otávio me conduz de forma adestrada e prudente por entre suas sobrancelhas, e o escuro dos fios de seus pelos é a matéria cotidiana do nosso amor.

Uma forma para Otávio

I

Otávio me fala coisas que realmente não entendo. Parece um ser de outro mundo que veio para a Terra com a capacidade sobre-humana de absorver tudo e simplificar numa única coisa. Deve ser porque é homem e eu sou mulher. Homem sempre consegue ser mais simples que mulher, ou pelo menos melhor que eu. Otávio é daquele tipo que simplifica para extrair as formas mais complexas possíveis, enquanto eu complico terminando por extrair coisas tão simples. Mas o meu simples é diferente do simples de Otávio, o simples de Otávio surge grandioso, enquanto o meu soa ridículo e sem vida. As formas de Otávio são incríveis, e não é porque estou apaixonada por ele que digo isso, mas porque é verdade. As formas de Otávio são belas por essência. Otávio é a minha redescoberta do Homem Vitruviano.

Otávio


Se me faltar amor, chamarei Otávio.
Otávio que sabe de tudo
Porque lê de tudo, bebe de tudo.
Otávio que saberá me falar do amor
de como aprendeu.

vero romântico


Para Edna e Fran

Você mijou na minha boca! Eu estava calado, porque era tudo verdade o que me dizia. Quanta honestidade nesse nosso amor. A vida só existe com honestidade, o resto é ficção. Poder dizer que durante a manhã estava indisposto por causa de uma diarreia, é para poucos que eu digo. Por isso as lágrimas estão soltas pelo rosto, correm livremente pelos sulcos da pele. É tudo água. Veio d’água. Sou feito de água e deve ser por isso que fico tão difícil em dia de lua cheia. A maré sobe e viro pura arrebentação. Não me contenho. 

Foda-se tudo isso

Com o coração atordoado dizendo: vá! e logo retrocede: volte que é perigoso! Você pode se danar... Por que ir se é mais fácil voltar? Rever os familiares, beijar os pais e esquecer que as coisas desejam te suprimir como a um grão de ervilha. Estou tão suprimido, tão próximo da loucura que pular dois degraus é como me jogar de um desfiladeiro. Pedras rolando, gritos de socorros inexistentes e a vida correndo por outro lado. Certo ou não, discutirão os filósofos. Não nós, meros humanos. Talvez eu não esteja acostumado a ser humano, esse corpo pretensioso a se manter em pé ante qualquer adversidade da vida. Sou daqueles que se dobram diante a vida, como a um animal morto de fome, sede ou fumo. Quero a fumaça das brumas e todo o mistério que ela contém. Não me basta sorrir para estranhos, quero lhes beijar e senti-los animais como a mim. Quero abraçá-los e dizer que a vida se resume a isso e nada mais. Talvez dormir bem seja o grande remédio de tudo. Eu que morro a cada noite com meus pensamentos na cama, com minhas masturbações de gozos fracos que fazem meu braço direito reclamar: troca de braço, dá trabalho para o esquerdo que eu já não aguento mais teu prazer improfícuo! Ahhhh, quem não aguenta mais sou eu, porra de braço, eu que durante as noites gozo sozinho! Soubesses o quanto é triste não me repreenderias! É como cozinhar para si mesmo, matar sua própria fome, comer como um rei, mas não dar de comer a quem também tem fome! E o mundo inteiro tem tanta fome que mesmo se pudesse alimentá-lo haveria outras fomes que não poderia extingui-las. Depois da fome sólida, vem a fome da arte e da própria vida. Retornaremos ao movimento modernista brasileiro: comer-me-íamos! Antropofágicos e iridescentes os dentes manchados de sangue kandiskyano, discutindo sobre a cor e a forma. Foda-se tudo isso! Pelo menos por enquanto que desejo clareza mental como diria uma amiga. Só quero Deus na ponta do dedão do meu pé. Quero gritar um grande foda-se para o mundo que por enquanto não me diz nada além de: caminha, sangra teus pés como um mártir, que tarde, mas muito tarde, os frutos de teu sacrifício florescerão como pomos de ouro.

Palavra

Se você fosse mais poético, o inaudito seria dito sem recusas. Saberia que sexo não é fazer posição de yoga, que o Kama Sutra está fora de moda e que um papai e mamãe bem feito poder ser muito mais gostoso. Mas estão todos irreversivelmente virados e revirados sem saber em qual posição ficar. E toda e qualquer palavra além é motivo de obscenidade. 

A palavra é a força do convalescente. 
A palavra é meu comprometimento com a honestidade. 
A palavra é a minha barricada revolucionária contra os balbuciadores ineptos e falidos de amor.

De profundis

Quem está nos meus extremos?

Leminsky ou Adélia?

Quem me encoraja a atravessar oceanos num barco de madeira sabendo que não haverá mais volta?
Tenho que deixar de ser temerário, abandonar as ideias de liberdade e ouvir mais os outros, os de bom coração que acendem velas pela convalescência do espírito adoecido pelos vícios; os de corações religiosos e bentos, que das coisas do mundo entendem tudo sem nunca terem participado dele. Onde estavam os sábios que não estavam comigo? Desconfio que não sou bento, e pronuncio isto sem mais pretensões, pois estive iludido por muito tempo sacralizando o que em mim arde de mais impuro sem pedir ajuda.

Deus,
preciso de ajuda,
mas quero continuar sendo eu!
É possível tal milagre?
É possível que numa madrugada toque o meu espírito e eu seja outra coisa melhor do que agora?

Sabá

Dia a dia seu nome fica mais distante junto a sua imagem já borrada. Nem lembro mais de como você tomava a xícara e se servia de café. O rangido dos dentes mordendo a maçã me acordando pela manhã. Tudo fica distante, longe do que era quando existia. A distância é muito boa, e o tempo o manjar de Saturno, o destrutor, a enforcar tudo com seus anéis, a arrefecer as lembranças nas pregas da memória. Mas penso se ao escrever isto, não estou diminuindo a distância fantasmagórica da tua face frente a minha. A minha em frente a um espelho. O nosso passado ressurgido. Então, voltas a me assombrar nos sonhos com teu sexo de íncubo, o teu sêmen recém-colhido na boca de um cálice alimentando os homúnculos do nosso amor.

Matéria

Perguntas-me se tenho nojo...
Absolutamente não!
É na matéria que sai de ti
que me transubstancio em alegria.

Teu cuspe na minha boca.
A minha língua cunilíngua.
A tua matéria cinzenta.
O meu prazer escatológico.

"aspas"

Estou ansioso, por isso o traço ansioso.
Sai tudo torto. Do quadrado ao sublinhar das palavras.
Nada é mais difícil do que sublinhar o que é importante.
Faço aspas,
são as aspas do poema “”,
são as aspas do “amor”.

Are u gay?

Se não fosse tão sensível, eu lhe contaria tudo sem restrições. Se você entendesse que palavras são palavras, e que todas as letras ferem e curam ao mesmo tempo. Mas sou um grande cínico. Rio, mas estou chorando (vice-versa). Eu realmente te amo. Eu realmente te odeio. Falo tudo isso com a mesma expressão, conhecendo-me não deveria se assustar. Abro a boca e já está a se esconder debaixo das cobertas, enquanto maliciosamente perscruta-me com um olhar infantil. Sim, você parece uma criança fugindo das palmadas, mas desejoso de levá-las e sentir o ardor proporcionado. Parece masoquista. Você é masoquista? Pareço Amy Winehouse perguntando ao seu menino: Are u gay? Sim, você realmente não é o homem que eu supus ser.

Palavrório de três versos

Hai-kai é poesia de espírito refinado.
Escrevo palavrório
que é muito mais fácil.

Palavrório de três versos


Se falas comigo, ignoro.
Estou às portas do reino
e só admito falar com o rei.

A do vestido rosa com bolinhas brancas

Parece que do nada a vida começou. 10 horas da manhã, carro de som anunciando coisas que não interessam a ninguém. O vento sopra em Laguna/SC farfalhando árvore. A mulher gorda, fala os seus problemas arrotando a necessidade de não sair por baixo, porque, sábia ou não, acredita estar sendo enganada o tempo todo. 

II 

Cabelo vermelho com vestido rosa de bolinha branca. E todos, para ela, uns mentirosos. Parece que sua vida é mais importante do que assistir a novela das nove. Assustei ainda mais quando ela me disse: 

- Vontade de roubar a bicicleta dela, que ela nem iria perceber. 

Logo depois, a bicicleta cai, e por guardar um repúdio tão grande por ela, exclamo: 

- Tais com o “zóio” bom... tá bem acompanhada de santo. 

-Não, ela que deixou mal apoiada a bicicleta. 

III 

Senhor, por que tenho tanto rancor por alguém que não me acha um enganador e se julga minha amiga? Será por que ela é gorda e usa aquele vestido ridículo que na minha casa serviria para cobrir o botijão de gás? Quantos preconceitos trago dentro de mim que põe espinhos na língua. Vontade de lambê-la e rasgar a pele dela, e deixar espinhos no seu clitóris, na boca, nas mãos e nos pés, deixar dias sem caminhar para que se destitua da sua arrogância, e peça ajuda para ir ao banheiro, para limparem seu cu, pois quando suas feridas se fecharem ela saia na rua beijando pés de mendigos, dando abraços gratuitos e pedindo afeto pra desconhecido.

Heartbreak changes people

Punha-se a cortar cebolas e chorar por horas a fio. Quando acabavam as cebolas, guardava em recipientes de plástico e congelava. Deitava-se. O dono do hortifrúti, nos primeiros dias, assim como seus familiares, deteve-se distante com suas opiniões. O verdureiro nunca havia vendido tanta cebola, seus familiares entenderam como uma fase pós-traumática de separação. Ele tinha sido largado pela namorada por um vagabundozinho da faculdade, por isso lhe concediam o direito de sofrer picando cebolas. Com o passar do tempo, tudo começou a parecer extremamente mórbido e constrangedor. Voltava da feira com sacolas de cebolas para picar e réstias de cebola envoltas no pescoço. Logo já não havia mais lugares nas paredes que não tivessem réstias penduradas. As roupas, desde os cobertores às roupas íntimas, estavam impregnadas do cheiro. Sua mãe praguejava, mas mantinha o humor temerário, gritando: meu filho, aqui em casa não criamos vampiros! Até sorria espremido em lágrimas, continuando seu ofício. O verdureiro, certa vez, deu uma sugestão: meu filho, porque não leva tomates e faz um bom molho ao sugo para comer nhoque no dia 29, traz muita prosperidade, sabia? Jogou um olhar esnobe, pagou pelas cebolas e voltou a cortar cebolas. Sua vida resumiu-se a isso, e cada dia tornava-se mais íntimo das cebolas, mais íntimo do seu abandono, mais próximo de parar de chorar. Tinha se resolvido. No fim, viajou o mundo, fez cursos de culinária, tornou-se reconhecido mestre de cozinha. Achou um novo outro amor, e pelo antigo nunca mais sofreu.

Trecho rascunho de 2010

A gente se fala mais amanhã e depois e depois e depois até um se apaixonar completamente um pelo outro

Uma carta para a páscoa

Meu pai sonhou que me batia com murros de homem possuído de raiva. Disse que queria me dar uma lição, me fazer homem, me por de cara a cara com o mundo. Oh pai, por que tanto amor? Porque não me ensinas de outra forma, de forma menos agressiva. Será que sou tão burro e grosseiro com as coisas do mundo? Será que sou tão orgulhoso? Estar sozinho é tão bom, mas ser livre fere o corpo de orgulho, escrevi outro dia isso e achei tão belo e honesto comigo mesmo. Parece finalmente que estou vivendo com honestidade, e todos os meus pensamentos estão voltados para a verdade e generosidade. Dou pão d’água, dou copos d’água, dou água, dou veios e rios, dou cascatas e gotículas, sou vertente para todos os homens e animais. Passo a mão em cachorro perdido sem medo da sua bocarra, e me sinto homem sem medo das coisas do mundo. Então, por que me bateres tão forte assim, se me dá exemplo sendo homem. Homem de verdade, encarquilhado de vida e força. Homem que nos dá de comer todos os dias, e mal ou bem, me alimenta de amor. Então somos uma família como qualquer outra, construindo e desfazendo nossos laços cotidianamente porque precisamos partir constantemente para ganhar a vida, para sermos nós mesmos, para sermos diferentes de tudo, para sermos puro amor e carência alcoólica. Quero abraços e beijos, e quero um corpo do meu lado, quero a minha irmã deitada sobre mim delgada de sentimento puro, chamando-me de mano, dizendo que só quer ficar comigo pelo resto do dia, cheios de preguiça e ternura. Então, ela me pisa as costas doloridamente alegando que é massagem. Sim, é massagem, é massagem de pés, de pezinhos infantis, são pezinhos me tirando os nós e as mágoas pela manhã. Melhor que café na cama, são os pezinhos da minha irmã. Que coisa angelical, que coisa abençoada, que coisa de Deus. Minha tia sempre fala para minha mãe: tens filhos abençoados. A mãe brilha os olhos, e isto nos acalenta de tal forma, que impossível é não responder, sim tia, temos a melhor mãe do mundo, que nos quer bem, e que bem ou mal, prepara a comida, e nos abastece de amor. Ah, como é bom ter uma família de verdade! E só um grande AHHHHH pode explicar o que sinto e o que tenho. Só um grande AHHHHH pode anular nossos vícios e nossas maldades que nem são tão más assim, mas que poderiam deixar de existir em pró do amor, do nosso amor familiar. Ahhhh, mais um ah e mais uma digressão para este texto de páscoa que quero ler pra toda a família no próximo domingo. E dizer que amo a vó, o vô, os tios, as crianças e todos os que me cercam e nos fazem bem. Tomar café com vocês, rir das coisas engraçadas e tristes, ficar horrorizado com as faltas que marcamos quando deixamos de beijar, de abraçar, de nos comunicar. Certamente, sem vocês, eu não seria eu e ninguém poderia sonhar com viagens, muito menos batizar ou casar de vestido branco e comer bolo de noiva. Bolo de noiva, bolo de aniversário, bolo de vida, ovo de páscoa. E a única coisa que tenho para dizer, é que partilhar minha vida com vocês é tudo, e que quero amá-los todos os dias. E que todos os dias antes de se levantarem, lembrem que não é preciso ter medo de viver, fazer escolhas, e principalmente, não tenham medo de amar.

Mas ser livre fere o corpo de orgulho


A claridade é insuportável aos meus olhos. Lusco-fusco. Estrelas desorbitadas. Rastro cósmico de verdades que não aceito. Estar sozinho é tão bom, mas ser livre fere o corpo de orgulho. Surgem marcas excêntricas de velhice, feridas de desconsolo. As roupas mudam, o bigode cresce e se implora por Deus pela a restituição da juventude. Mas eu quero ser velho, meu Deus! Tão velho quanto meu avô. Participar de excursões, conhecer o planeta de cabo a rabo, fumar cachimbos fedorentos, e beijar as crianças generosamente com a barba lhes espinhando a face. Ah, como o tempo futuro pode ser tão bom! É como uma dádiva isto, conseguir frescor nos dias cinza mais que nos ensolarados, porque sentir frescor em dias de luz é muito mais fácil e por isso às vezes não conta. Questão de maturidade. Certo dia, li uma reportagem sobre uma mulher com câncer em tratamento: senhor, como uma doença pode ferir tanto a vaidade de alguém? E como alguém restabelece sua beleza estando tão próximo da morte? É para se agarrar a vida ou para morrer menos feio? Quantas estultices eu levanto nestas perguntas, se sei a resposta. Deveriam me punir por enfiar os dedos em feridas estranhas. Grande metido que sou? Claro que não! É só a vontade de ser melhor a cada dia, e ficar velho cheio de sabedoria e amor.

Cena

Isto um dia lhe quebrará os ossos.
Estas maquinações megalomaníacas
e seus pensamentos intrínsecos
como se o surpreendessem chupando pirulitos em público,
ou se o vissem de calças baixas no banheiro.
Ou ainda pior,
sua mãe lhe pegar se masturbando:
já pensou a vergonha?
Ela apavorada
Você,
de pau duro e boca seca,
Ambos ardendo de vergonha.

Quase como a história do personagem que cortava cebolas e chorava compulsivamente

Estou consumindo caquis-café e a lhes tirar suas sementes há horas. Fruta tão libidinosa e madura. É como tirar os pentelhos da boca quando se beija o outro sexo: apesar do contratempo, não se anula o prazer sentido. Como caquis-café. Como compulsivamente porque gosto de pecar pelo excesso. Quando faço qualquer coisa, faço com muita vontade e realização na busca exclusiva do prazer que se tem quando se está entupido de excesso. Então vão todos se deitar com os buchos cheios de comida, os intestinos febris por receberem o quimo não transformado em quilo. Daí que vem a ideia de que o prazer é mais psicológico do que qualquer coisa. Pura enganação. O prazer vem de fora para dentro. Vêm das coisas do mundo para tapar nossos buracos, mesmo isto soando extremamente sexual. Mas, quem no mundo não possui uma prateleira vazias que lhes enoja? Põem-se livros ou lembrancinhas de R$1,99 para mandar o vazio a merda e assim transcender em gozo. Por isso como caquis-cafés em compulsão, pelo único prazer de cuspir as sementes, tirar os pentelhos da boca, até que me encham a boca com outra coisa, porque vazia ela não se sustenta.

Poesia em dia de chuva e contentamento

Meu não é sempre não
mas meu talvez é sempre
sim

Garçom, sirva-me com prontidão

Matei o medo covarde com covardia. Três balas de menta e alguns parágrafos de digressões, por favor! Garçom, meu sintomático garçom, traga-me a cerveja mais barata e uma dose de conhaque sem gelo, por favor. Meu sintomático garçom, abaixe suas calças e me coma sobre a mesa na frente de todos aqueles que se permitirem ver, e que todos se excitem concupiscentes do meu gozo. Garçom, sirva-me com prontidão lasciva e pervertida, como quando se brinca com cenouras, cabos de guarda chuva e escovas de dente. Risos de perversão. Risos de digressões estilísticas. 

Lembro-me da série “Vegetais” que vimos no sex shop, ma chérie. Seria hilário e sexual brincar com eles agora. Retirá-los da geladeira fantasiando sobre suas diversas funções. É como ter afeto e sexo cheio de amor próprio, sem se envergonhar das posições escabrosas feitas para adaptar o corpo ao objeto. Garçom, um pouco de lubrificante para o menino ali no sofá... quem sabe umas lambidas, uns ósculos grego, ou uma cheirada parceira de reconhecimento entre os cães. Parceria é tudo! Todavia o desejo em parceria é melhor ainda! (euforia). É quando nos reconectamos a algo primitivamente latente, pronto para transformar-nos numa besta, num animal selvagem, num xamã surpreso de estar lendo A filosofia na alcova. 

E porque tantos traumas: pênis são pênis, vaginas são vaginas, e a sodomia existe desde quando o mundo é mundo. É como andar em pares: desde a Arca de Noé que as coisas andam aos pares, e depois trocam de pares naturalmente. Vicioso ciclo a que nos propomos. Estamos sempre dispostos a dar nossos corpos por minutos de gozo, por minutos de encaixe, pois onde há buracos, queremos preencher ou sermos preenchidos, ou preencher e ser preenchidos ao mesmo tempo. E mesmo quem não gosta de sexo, dá seu sexo em troca de um copo d’água. Mas claro que todos gostam de sexo, pois todos somos pequenas bestas pervertidas capazes de fazer coisas que diante dos pais não faria, ou suporia dizer que gosta de coisas escatológicas numa mesa de restaurante para manter-se elegantemente comprometido com o currículo adquirido. Mas quem realmente se importa? Esse negócio de dama na sociedade e putão na cama pra mim não cola mais, a não ser que seja fetiche de homem machista e contra os fetiches não me pronuncio, desde que todos estejam cientes da situação e saiam da transa realizados. 

Ah! Como é bom escrever sobre sexo abertamente, é como uma masturbação intelectual gratificante, escolher as palavras certas, gemer interjeições e gozar reticências... Mas nada substitui a velha transa: pele com pele e desejo visível em toda sua excitante volumetria e secreção, sem eufemismos ou não me toques, porque, compactuando com a personagem do livro a Casa dos Budas Ditosos, o objetivo da vida é foder! Simples assim!

Matei o medo covarde com covardia

Um pequeno descuido e aquelas coisas poderiam ter me atingido irreparavelmente. Numa velocidade absurda, uma nuvem, destas espessas e cinzentas, trazia tempestades de vento, areia e água, e mais três meninas desesperadas trancadas no banheiro tentando se proteger da possível morte que não aconteceria. 

-Moço, moço, implorou-me por ajuda como se eu pudesse fazer algo. 

Levei água gelada, três copos e três balas de menta. 

- Calma... isso passará rápido, principalmente quando se chupa bala de menta. 

Então, matei o medo covarde com covardia. Com bala de placebo. Água com açúcar, água com açúcar, gritei num fingido desespero, num grito também placebo para que soubessem que também padecia do mesmo mal. Tomei a água açucarada... abracei-as... enquanto no horizonte surgia o sol alaranjado de Blade Runner.

I

Demorei pra entender que tudo o que se desenrolava era sobre minha pele. Frêmitos, arrepios ou dores no estômago. Até quando nos ferir por egoísmos românticos? Há bebidas alcoólicas, cigarros de maconha e comprimidos de rivotril para aliviar nossas angústias. Já não precisamos mais nos aturar por estarmos apaixonados, pois a paixão se foi como todas as outras coisas. As carícias repetidas, os “eu te amo gastos”, os beijos resgatados, os caminhos re-seguidos imaturamente depois dos olhos piedosos por um “não me deixe!”. Ah, sempre podemos fazer diferente! E vamos adiante, atravessando dias, meses e anos nos querendo e nos desperdiçando porque também não nos queremos, e nos perguntando aonde nos perdemos. 

Até que há novamente o fim, momento tão esperado por todos. Aprontas as malas como se elas aprontassem-se sozinhas, e andassem até a porta por conta. Aí me olhas como um cão faminto diante da tigela, e me pedes mais, e mais, mais, e por pena, tranco a porta, engulo a chave e digo que de mim, não sairás mais.

II 

E por um ano achei que não sabia o que era ser mais. Sendo que fui eu o tempo todo. 

III 

Ah, sempre podemos fazer diferente porque tudo que se faz, faz-se já diferente. Nunca seguimos o mesmo caminho, porque as vias se estendem maravilhosamente diferente para nos confundir românticos diante do espelho. Igualmente a saudade, só aperta quando longe, perto, ela se extingue como o fogo num palito de fósforo. Combustão rápida para acender e desvanecer. 

Mas há algo que nunca muda: os caminhos que se estendem. Só se estendem diferentes para nos confundir românticos pelos outros caminhos que virão. E não é um clichê dizer que a grama do vizinho é mais verde quando tudo o que nos aproximava, lançava-nos para fora do círculo da bruxa depois de gozar. Então, sente-se nojo do cheiro da pele, toma-se banho, troca-se o lençol e tudo que lembre o sexo feito há minutos atrás. 

IV 

Escrevo cartas, porque as idas e vindas tornaram-me uma pessoa mais ponderada. A primeira vez que terminamos, tornei-me um delinquente como todo poeta que sofre de amor: tomava conhaque e uma baga de rivotril, dormia como um cachorro de lanchonete que repousa no chão depois de se empanturrar de frituras. Agora, tomo chá de hortelã, e além, vejo outros caminhos maravilhosamente pertinentes, como sonhar estar acordado, arrumando-se para uma nova aventura, e não ter saído da cama: um ato falho. 


Combustão rápida para acender e desvanecer. Risca-se outro fósforo, acende-se mais um cigarro e espera o mundo transubstanciar-se em espíritos bricalhões para zoar no círculo da bruxa. 

Sinto a bruxa dentro de mim, como quando fiz 18 anos. Mas a bruxa assume outra forma e ganha o nome de filme de ficção cientifica: Alien, o hospedeiro. 

VI 

Sou um homem gestando um Alien monstruoso que devastará horripilantemente a ordem humana. E virão outros, e outros, como as crianças índigo, substituídas pelas crianças de cristal, que vão ao bar vestidos de new agers em busca de sexo livre e bebidas doces. 

VII 

Lindolf Bell já saía com seus amigos, em suas camisas xadrezas e versos filosóficos nos lábios, para melhorar a existência. Torna-la leve e suportável diante às adversidades da rotina dos que sofrem as dores do mundo durante a semana de trabalho árduo. 

-Vamos lá, percorrer as ruas da cidade durante a noite, vamos nos sentir moribundos e vivos. 

VIII 

Fernando Pessoa, também estou farto de semideuses, aí do outro lado você encontrou humanos de verdade? Ou esta minha esperança é mais uma das mentiras do meu século? 

IX 

Chega de falar disso. É como falar de novidades que não são mais, ou comprar um aparelho eletro doméstico que se tornará obsoleto em poucos dias por falta de uso, sem entender então, porque de ter pagado tão caro por algo inútil. Mais do que saber que se pode ter, é saber se é necessário ou não.

Seria tão bom pintar as paredes de vermelho, as luminárias de preto, e ter como paisagem as cerejeiras do Japão...

Rafael Geremias