No bar Eucalipinho

Gostava mesmo era da alegria das putas; de como não tinham problemas quando sentadas às mesas de plástico, junto aos machos, serviam-se das garrafas de cerveja suadas, rindo e cantando despudoramente. Por isso passava tanto tempo no puteiro. Puteiro de pobre, com bafo de cigarro do Paraguai, conservas de ovos cozidos e banheiro sujo. Lá era tudo alegria e tudo permitido. Até confundir travesti com mulher, mulher gorda com magrinha, homem pobre com rico, sertanejo com bolero, kuduro com Strauss, sexo com amor. 

Vi muitos dos meus colegas, trocando família por puta. Houve até uma vez, que o colega bateu com a mão na mesa do bar, com a puta do lado, pediu silêncio e oficializou noivado num dos discursos mais eloquentes da história daquele bar. Muitos deles foram felizes, outros nem tanto, mas isso, de felicidade, não cabia a mim, eu que nunca tive família muito menos comi uma puta.


Imperceptível pelos sentidos se não nos viesse por meio da dor

(a Isadora Coan)

Cercado por bocas que não compreendia, falavam de coisas que só me pertenciam caso bebericasse o conhaque, que agora já descia sem sua presença marcante inicial. Foi quando Berenice se levantou sutilmente trôpega pela bebida, e como se me convidasse, segui-a. Encontrávamos num dos cômodos de uma casa que não era a mesma de quando saímos da mesa, era como se eu tivesse viajado sedado e acordasse então, num ritual em que eu seria o sacrifício. Sim, eu seria o sacrifício, e Berenice seria a sacerdotisa de Poe a me arrancar a vaidade mais uma vez.

- A sacerdotisa de Poe!

ri da tolice a que me permitia, de que ela me arrancasse os dentes com seu sorriso alvo diante dos meus, amarelecidos pelo café e cigarro. Mas o que poderia fazer se já estavam moles? Segurá-los com os dedos como tentara outrora, e mesmo assim, vê-los tilintarem sobre o piso de madeira? Não, pois eram dentes demais!

Um a um foram caindo. E por maior que fosse a perda, maior era a vontade que recorria a Berenice para me restituir uma dentição nova, reluzentes como as que ficam desavergonhadas nos copos com água durante a noite; no entanto, o que nascia em minhas gengivas eram raízes como as de plantas, ora infiltrando-se na terra, ora descendo por minha garganta na rapidez das coisas que sufocam como se fossem lentas.

Conhaque


Com o coração dilacerado vagabundeando pelas ruas, insistia:

- Leve-me até o inferno!

Rafael Geremias