No bar Eucalipinho

Gostava mesmo era da alegria das putas; de como não tinham problemas quando sentadas às mesas de plástico, junto aos machos, serviam-se das garrafas de cerveja suadas, rindo e cantando despudoramente. Por isso passava tanto tempo no puteiro. Puteiro de pobre, com bafo de cigarro do Paraguai, conservas de ovos cozidos e banheiro sujo. Lá era tudo alegria e tudo permitido. Até confundir travesti com mulher, mulher gorda com magrinha, homem pobre com rico, sertanejo com bolero, kuduro com Strauss, sexo com amor. 

Vi muitos dos meus colegas, trocando família por puta. Houve até uma vez, que o colega bateu com a mão na mesa do bar, com a puta do lado, pediu silêncio e oficializou noivado num dos discursos mais eloquentes da história daquele bar. Muitos deles foram felizes, outros nem tanto, mas isso, de felicidade, não cabia a mim, eu que nunca tive família muito menos comi uma puta.


Imperceptível pelos sentidos se não nos viesse por meio da dor

(a Isadora Coan)

Cercado por bocas que não compreendia, falavam de coisas que só me pertenciam caso bebericasse o conhaque, que agora já descia sem sua presença marcante inicial. Foi quando Berenice se levantou sutilmente trôpega pela bebida, e como se me convidasse, segui-a. Encontrávamos num dos cômodos de uma casa que não era a mesma de quando saímos da mesa, era como se eu tivesse viajado sedado e acordasse então, num ritual em que eu seria o sacrifício. Sim, eu seria o sacrifício, e Berenice seria a sacerdotisa de Poe a me arrancar a vaidade mais uma vez.

- A sacerdotisa de Poe!

ri da tolice a que me permitia, de que ela me arrancasse os dentes com seu sorriso alvo diante dos meus, amarelecidos pelo café e cigarro. Mas o que poderia fazer se já estavam moles? Segurá-los com os dedos como tentara outrora, e mesmo assim, vê-los tilintarem sobre o piso de madeira? Não, pois eram dentes demais!

Um a um foram caindo. E por maior que fosse a perda, maior era a vontade que recorria a Berenice para me restituir uma dentição nova, reluzentes como as que ficam desavergonhadas nos copos com água durante a noite; no entanto, o que nascia em minhas gengivas eram raízes como as de plantas, ora infiltrando-se na terra, ora descendo por minha garganta na rapidez das coisas que sufocam como se fossem lentas.

Conhaque


Com o coração dilacerado vagabundeando pelas ruas, insistia:

- Leve-me até o inferno!

A família entorno à mesa

O frango assado
entorno
aos pratos
aos talheres
às mãos
às pessoas

as pessoas
entorno de si mesmas
de suas fomes e de suas solidões.

Solilóquio

O celular, sem ligações; o Facebook e o e-mail, sem mensagens novas. Sim, não tenho mais notificações para checar, e estou aflito.

Pergunto:

- Se voltou, por que se ausenta?

Não havia mais saudade desde a vez em que havíamos dado um fim. Lembro-me de lhe ver saindo de casa, e eu com os olhos embaçados diante do espelho reafirmava o fim. Até que disse, depois de um tempo, que queria conversar comigo. Depois nos deitamos, transamos, repetimos encontros, e aceitamos a nos chamar de amor porque ainda era amor, seria frustrante nos negarmos a esse direito

(...)

Os homens que nunca existiram

O mais difícil era dizer a ele que o que ele vivia não existia, era invenção. Ele não sentia o que realmente sentia e nem amava o que ele dizia amar: sofria desnecessariamente.

Todo aquele desequilíbrio, aquelas noites de cigarros acesos, taças de vinho sempre pela metade, os beijos e promessas de eternidade, nunca aconteceram, ou eram meras imagens das drogas que usava para dormir, mas sim, pequenas ilusões.

Diz-me:

-E de que serve a realidade quando se ama?

Não sei te responder. Como não sei te responder se sou mais feliz contigo ou com os outros. Quando tudo, toda a minha personalidade se desfaz num gozo em que as minhas pernas se tornam catatônicas, e dentro do seu mundo, meus lábios mexem-se involuntariamente.

Vizinho Eu

Ao abrir a porta, agora pela manhã, vejo no chão uma folha A4 dobrada como as atas que mensalmente são entregues a cada condômino. Não me demoro muito para juntá-la, enquanto vou deixando pela casa a pasta, os sapatos, a roupa, dirigindo-me ao computador. Sento para ler. Susto: algum vizinho intrometido me descrevia como um personagem, e tinha a cara de pau de me chamar de putinha-que-deu-a-noite-inteira. 

Desconfio de quem seja, e me intimido: ser descoberto dessa forma é como ter que abandonar tudo e ter que se revestir com outra casca.

Palavrório de três versos

Porque estou sempre lá, no futuro.
Por isso largo-me no vazio
que habitam os desolados.

(variação)

Porque estás sempre aqui, no presente-comigo,
que te compartilho no vazio
que habito desolado.

Palavrório de três versos

Antecipo-me no momento em que anuncia sua vinda.
A partir de então, viver é a espera aflitiva
ante a chegada e a partida do seu corpo.

Palavrório de três versos

Matei um mosquito com o livro do Mauel Bandeira.
Não, isto não é falta de respeito com ele,
é a vida acontecendo enquanto leio.

- Se soubesse que isso lhe machucava, não teria feito!

Éramos duas crianças. O que tínhamos em comum? Os bolsos cheios de quartzos rosa. 

Diariamente arrastávamo-nos pela cidade até o lago para arremessá-las na superfície e vê-las quicar. Depois, mergulhávamos para reavê-las; beijávamo-nos e nos esfregávamos do jeito que vimos, quando descíamos a escada e papai masturbava-se assistindo a um filme pornô. 

Outras vezes, atirávamos nos telhados das casas e saíamos correndo para nos esconder em algum canto e rir dos desaforos que nos praguejavam. Depois, beijávamo-nos e nos esfregávamos, e voltávamos para casa, satisfeitos de algo que fazíamos sem compreender.

Um dia, arremessei um quartzo na cabeça dela, ela pôs a mão onde estava doendo. Continuei a atirar até esvaziar os bolsos. Ela tentava se desviar chorando como um animalzinho que lhe pisam as patas, enquanto eu gargalhava como um grande sacana.  Abracei-a, beijei-a e me esfreguei nela como sempre fazia. 

Durante meses as coisas aconteceram assim até que:

- Não quero mais brincar contigo! 

Ela disse isso com a cabeça posta na fresta da porta. Logo veio sua mãe e a retirou de lá como se eu tivesse feito algo de ruim. 

Bati à porta. Cabisbaixo e com o horror da frase persistindo em minha cabeça, disse a ela:

-Eu deixo você me jogar pedras, se você quiser. Só volte a brincar comigo!

Ela não hesitou. Carregou os bolsos e me levou até um terreno baldio próximo a casa dela, aonde me jogou os quartzos que me atingiam dolorosamente a ponto de me fazer chorar, de implorar que parasse; que isto não estava certo, que não era assim que eu a amava.

- Se soubesse que isso lhe machucava, não teria feito!

Ria de mim, ria porque agora se equiparava a mim, e eu, rebaixava-me ao animalzinho das patas espezinhadas, miando de dor; miavam as feridas que pediam pela língua dela e o cuidado de suas mãos delicadas. Mas, ela virou as costas, enquanto eu ainda estava no chão, e foi embora de fato.

Quintanista

Vi quando a menina disse ao outro menino:

“Não quero mais brincar contigo!”

O menino não entendeu o porquê, cabisbaixo e com a expressão de desolamento foi para casa. Tive pena do garoto, nunca mais o vi na rua desde então. Decerto, fora para ele um abandono desleal. É como dizer: eu não te amo mais, vou embora! A mala pronta em algum canto qualquer. A saída repentina. A morte repentina. Todo um mundo criado sendo desconstruído pela fugacidade da vontade. 

Sim, porque se morre diversas vezes até a morte física. Morre-se a cada não, a cada insustentabilidade que me põe em fuga em busca de refúgio na próxima novidade que me matará novamente e novamente. E tudo fica mal resolvido nessa vida, mesmo a certeza de “eu não te amo mais, vou embora” é apenas uma meia certeza.

Imagino o que a menina fez com ele quando disse isso, quantas coisas passaram por sua mente e quantas culpas lhe vieram dizer que sempre esteve fazendo coisas que a desagradavam. Até mesmo os sorrisos que fez surgir na face dela, vêm lhe cobrar o infortúnio:

-Então todos os risos não eram para mim?

Ah, porque há sempre dívidas tolas que nunca poderão ser pagas, e o tempo está aí, quando não consegue quitá-las, arrefece-as na lembrança.

A herança dos trejeitos

Mais do que isto que me diz,
aquilo que me reparte longe das tuas palavras:
a liberdade coesa que existia
em mim antes do encontro.

- Eu tinha uma liberdade que entendia antes de ti.

Busco-me no espelho,
mas o corpo está fragmentado, e em cada parte que fora lançado pelas ruas,
pedaços de memórias caóticas impossíveis de jungir.

Quero tudo de novo,
os meus 18 anos aos 22
sem remorsos,
sem recalques,
sem teus trejeitos
que emergem em mim
no modo que agora sorrio
e me lavo.

atenção

Entenda minha sensibilidade,
entenda meu choro.
Não é à toa o cigarro acesso na mão esquerda,
o vinho servido, o livro de poemas aberto sobre a mesa.

Entenda minha humanidade,
a minha necessidade de te ler um poema,
de provocar-te estas palavras,
estes desamparos de afeto.

Quando decidi escrever este poema,
tinha os olhos feridos de sal;
o corpo fragmentado e inútil e sofrido
por tanta beleza sendo lançada fora.

(tantas angústias que poderiam ser evitadas,
não fossem as mesquinharias e a falta de vontade
dos homens.)

Entenda minha sensibilidade.
Consola-me, não porque estou fraco, porque ninguém é fraco,
mas porque teu abraço e tuas palavras
restituem minha humanidade.

Fragmento

Então, repito o poema até que não me atinja mais pela simples necessidade de ultrapassá-lo, como se ultrapassa um obstáculo...
porque palavras são muito mais que simples obstáculos, são dragões chineses serpenteando pelas ruas de Pequim em dias de adoração. Todos param, querem-nos destruídos, ardidos em fogo. Empunham tochas intumescidas de querosene, tomam coragem para atear fogo, mas recuam e adoram. Inventam estratagemas, desejam um novo tempo, redefinem os versos, e a memória do poema se firma para longe do esquecimento.

Homossexuais, viadinhos, travestis, facebook e a porra da liberdade de expressão

Que consistência tem o argumento desse tipo de imagem?
É gerado por quem: homossexuais ou heterossexuais?
Qual o compromisso com o ser humano?


No livro A Casa dos Budas Ditosos de João Ubaldo Ribeiro, sua personagem principal expõe sobre as facilidades que só a atualidade pode nos disponibilizar: novas tecnologias de informação; gadgets que nos fazem super-humanos como um ciborgue; possibilidade de convívio globalizado... para no fim, nos descobrirmos como simples humanos repletos de preconceitos e hipocrisias que não nos deixam combater o “atraso”. 

Somos muito atrasados. Que diferença há entre um homossexual, um viadinho e um travesti? Não vejo nenhuma, ou vejo? Claro que vejo: o modo como escolheram viver suas sexualidades, se é que é possível definir como uma escolha, no entanto isto não é propriamente positivo ou negativo. Mas a pergunta que faço é: o que importa tudo isso? Em que momento um homossexual, um viadinho ou um travesti são diferentes essencialmente falando? E por que a necessidade de forjarmos um personagem másculo pré-histórico quando somos apenas seres humanos querendo compartilhar da vida e seguir em frente? 

Os "machões" frequentam a academia, tomam suplementos, ficam sarados, depilam o cuzinho, e à noite procuram sexo fácil com menininhos afeminados ou mesmo travestis, mas enchem a boca para dizer que desaprovam homossexuais “bandeirosos”. No facebook compartilham imagens e pensamentos tão medíocres que só surtem efeito aos mais tolos, porque acham que minimizarão o preconceito que sofrem, subjugando outros comportamentos diferentes dos seus. 

Que mundo é este que estamos formando? A quem estamos querendo convencer? E por que teimamos em dizer aos outros que suas necessidades são inadequadas, e que deveriam seguir por outro caminho para serem melhores aceitos? 

Quanto mais nos instruímos, menos estamos nos tornando melhores como humanos; geramos mais preconceitos e hipocrisias em pró de uma sociedade Kitsch, vazia e atrasada. 

Devemos, sim, combater o atraso, é uma dívida individual para com o todo. Não é questão de tomar partido do que é certo ou errado, é antes uma maneira de conquistarmos respeito como seres humanos e vivermos com ética.

Adaptação

Algo de muito estranho acontecia aos nascituros daquela cidade: quando suas mães davam à luz, seus bebês nasciam sem o braço direito. A população a princípio não se preocupou porque eram casos esparsos, como um boato vindo de longe assumido de “compaixão” e de “Deus me livre”. Foram até visitar a primeira criança sem braço, o filho de Cláudia. 

- Cláudia do céu, como foi acontecer isso? 

Cláudia lamentava por si mesma e por seu filho, pois em decorrência disso, seu marido tinha os abandonado. 

- Deve ser essa sua genética! 

Mas passaram-se quatro anos, e a cidadezinha pequena entrou em polvorosa quando viu suas salas de aula repletas de crianças malformadas, e decidiram que poriam fim à situação. 

Reuniram-se no centro comunitário; falavam ao mesmo tempo, seus corações inflamados saltavam à boca, e suas mentes não comandavam mais: queriam a morte de Cláudia e de seu filho. 

Mataram Cláudia, seu filho, e puseram-se a cruzar novamente. E as crianças sem braços continuavam a nascer. Reuniram-se, os saudáveis, e três dias depois, cientistas, sociólogos e espiritualistas estavam na cidade colhendo amostras, levantando dados, aspergindo bênçãos de cura. 

Os cientistas disseram: 

- Devem-se castrar crianças e pais antes do pior! 

Os sociólogos: 

- Fazemos a cruza com estrangeiros antes do pior! 

Os espiritualistas: 

- Não está mais em nossas mãos! 

Assim, dividiram a cidade em dois grupos: o primeiro grupo de casais que nunca tiveram filhos aguardariam os resultados; o segundo grupo de casais que tiveram filhos com o problema seriam subdivididos numa metade castrada e outra posta em cruza com estrangeiros. 

Mas nada adiantou, a não ser a castração. Os que cruzaram com estrangeiros tiveram filhos sem o braço esquerdo ao invés do direito. A cidade deu-se por vencida. Alguns se sentindo culpados pelas atrocidades cometidas, substituíram a estátua de prefeito pela a de Cláudia e seu filho de mãos dadas. E todo ano homenageavam-nos com flores no dia em que foram assassinados. Os que não se sentiram culpados fugiram ou foram mortos por manterem seus preconceitos. 

Mas dizem até, que alguns se dirigiam à Cláudia pedindo um filho de dois braços. Certo dia ela atendeu, virou uma espécie de santa, causado estranhamento, tinha feito milagre.

Espontaneidade


Se eu sou espontâneo? Claro que não. Perdi minha espontaneidade há tempos, e não saberia informar a data precisa, nem a faixa etária em que me encontrava quando deixei de rir para parecer educado, ou ri pelo mesmo motivo.

Não há nada de errado com a educação, ao contrário, acho muito bonito quem se serve dos bons modos transparecendo espontaneidade. Exatamente quando alguém exclama palavras chulas sem ser vulgar. Os extremos que tornam as pessoas verdadeiras mesmo quando condicionadas.

Escrevo sobre espontaneidade, delicadeza e vulgaridade. Escrevo sobre mim, que sem delicadeza perde a espontaneidade sendo vulgar. Não há um gesto em mim que não seja ofensivo, que não seja mentiroso ou dissimulado. Desde o sorriso aos bons modos na mesa, tudo muito falso, tudo muito inadequado.

- Se eu sou espontâneo?
Claro que sim.
Quando estou drogado.

Bebericar

Leio tanto essas coisas em busca de um pouco de entendimento, porque a vida por si, não me consegue instituir. Beberico infusão de cidreira, já que depois de ler uma revistinha qualquer, aprendi que chá são apenas as infusões feitas com a planta de nome científico camellia sinensis. (Quanta tolice para ser humano). É como se eu precisasse de algo falso para constatar que é verdadeiro o que vejo. Por isso, mesmo não tendo fé em religião alguma, consigo entender o motivo de tantos frequentarem igrejas. 

Sei que quando me diz essas coisas, é com o cuidado de um amigo servindo ao seu papel de: 

“não fique assim que a vida é muito bonita!”. 

Eu: 

“a vida só é bonita porque hoje eu li Adélia Prado.

Bebericar

Terrível são os dias em que preciso de cafeína para continuar empurrando a vida. O café preto e amargo, despertando-me como um zumbi para fazer coisas inúteis: ir à faculdade, ouvir as mesmas ladainhas ausentes de vida, de professores que às vezes não tem a mínima noção sobre o que falam, e por isto não restituem novas idéias ao pensamento acadêmico. Parecem montes de merda cheios de erudição. 

Choca-me a erudição alheia aos sentimentos. Adianta absorver tantos autores sem ao menos sentir os pelos do braço eriçando-se? Mais valeria dizer: este pensamento, que não sei explicar a vocês, causa-me arrepios mil! Eu entenderia tão bem isso. Como entendo do êxtase religioso sendo descrente. 

Gritam sob a nave da igreja: 

-Senhor, tudo isso por um pouco de beleza! 

Muitas vezes, deparado com a arte, meu corpo acaba exprimindo mais do que a minha capacidade intelectual poderia fazê-lo. Nem os maiores axiomas são-me capazes de refletir mais do que a beleza de algo que me toca. Então, repito o poema até que não me atinja mais pela simples necessidade de ultrapassá-lo, como se ultrapassa um obstáculo. 

Talvez seja por isso que muitos absorvam o desnecessário e vulgar que não lhes fazem mal. Uma música um pouco mais triste, um livro cheio de pensamentos singelos, são para eles um ultraje. Logo exclamam: 

“tira essa música de velório, aiiii!” ou 

“não sei por que você lê tanto essas coisas que te deixam assim, ó!” ou 

“Por que não aprende alguma coisa que te dê dinheiro, cara?” 

Grito no meio da cozinha: 

-Senhor, tudo isso por um pouco de beleza? 

Beberico o raso café, sua borra, e o resto do dia impinge-se de taquicardias.

Vizinho tu

Sou o vizinho dele. Ouço o francês macarrônico copiado das músicas que ele ouve. Dói-me o coração de saber que não há dor no que ele reproduz. Apenas a nostalgia artística que muitas vezes procuro, mas, acabo desatando num choro descontrolado de quem sente a nostalgia que ainda não passou. 

Se ele também sofresse pelo o que eu sofro, bateria a sua porta, diria que há algo de errado conosco, e que deveríamos passar por isto juntos, como se fossemos um o analista do outro, fazendo associações de fugas, buscando novos refúgios. No entanto, tudo nele é de uma pertinência teatral. 

Quando o vejo pela manhã, descendo a escada para sua aula matinal, observo sua roupa e imagino qual personagem o encarnou durante o sono. Imagino até mesmo qual livro leu, o filme que assistiu ou o programa de entrevista que deixou ligado enquanto adormecia. E nada nele dói mais do que um dia. Deve ser por isso que às vezes o julgo como uma bichinha alheia a cumprimentos, às fomes do mundo, e aos diálogos inflamados dos grandes mestres da literatura. Outras, o julgo como um homem obstinado por seus deveres, travestido numa gravata negra, uma mala executiva de couro, apressado para ganhar muito dinheiro dizendo às pessoas que conquistou seu lugar no mundo. Tudo tão inconstante que gastaria todas as palavras para descrever todas as personas que compõem seu guarda roupa. Não que ele não os repita, mas sempre repete de forma única. 

Ontem, ele acenou da escada, estava com o seu habitual short-de-putinha-que-deu-a-noite-inteira-para-desconhecido. Não ouvi seus gemidos, porém, durante a madrugada, vi um homem meio gordo e atarraxado descer as escadas, sorria como apaixonado ou como homem que gozou, e manteve o gozo anestésico depois do sexo. Não sei quanto ao meu vizinho, parece ter feito sexo como uma necessidade habitual ao animal, tomou banho, apagou a luz e dormiu. 

Vontade de parar por aqui, porque pareço um futriqueiro, sem mais nada com que se preocupar na vida. Mas me intriga é o pensamento dele, mais ainda seu sentimento mutante, que não posso nem comparar com as estações do ano, porque estas mantêm sua regularidade. Parece que ele insiste em buscar a novidade, em abocanhar a vida de todos sem ser abocanhado, e isso me intriga a ponto de sentir raiva, de querer ser ele. 

De futriqueiro a invejoso em menos de poucos parágrafos. Consigo me superar quando se trata dele. Daqui a pouco, passo a lhe amar e o querer deitado comigo, fazendo amor comigo, estendendo toda nossa carência através do sono. 

Paro por aqui. Estou confuso. Lavarei a louça para me distrair.

Não, esta é a minha felicidade

Não lembro ter falado muitas coisas, lembro-me apenas de ter levantado da cama, ido até a estante, pegado o CD do Bruce Springsteen e posto para tocar. 

Eu: 

- Ouvia tanto quando era mais novo! 

Ele: 

(...) 

Via-me perscrutando meu passado com a mesma vivacidade que podia imaginar um avião destroçando-se sobre o mar sem me aterrorizar. Pelo contrário, mantinha-me atento a cada instante, afoito pelo o que precederia: redescobri uma parte de mim, senão o todo de mim, e que era momento de reavê-lo. 

A redescoberta é uma das coisas mais catárticas que pode ocorrer àquele que, angustiado, pensava sua existência aniquilada pela falta de alternativas. 

Redescobrir é como ter passado por anos de inanição, e agora sentir-se faminto novamente. Redescobrir é como ter estado enfermo, e do nada reaver-se são como uma criança que ainda não entende nada sobre hipocondria. 

Citando Ana Karenina:

- Desgraçada, eu? – exclamou Ana, aproximando-se dele, fitando-o com um sorriso de amor e exaltação. – Sinto-me como uma esfomeada a quem deram de comer. Talvez tenha frio, talvez esteja esfarrapada e sinta vergonha, mas desgraçada, não. Desgraçada, eu? Não, esta é a minha felicidade.

Bebericar

Mantive-me débil durante todo o dia. Ora olhando para fora da janela observando as casas, os passantes; ora bebericando qualquer coisa para me manter absorto na leitura, umedecendo o pensamento que, agora lido, segue seu próprio fluxo associando-se às minhas lembranças. 

Quando se permanece débil é que se tem o entendimento do fluxo, e o entendimento é um grande susto como o despertar com a porta sendo batida pelo vento. 

Muitos pensam no entendimento como a abertura sequencial de portas sem sequer levar a mão para girar a maçaneta, enquanto as percorre como Moisés atravessa o Mar Vermelho... o mar agitado sob uma barreira de contenção invisível, pronto para rebentá-la. 

Como disse antes, o entendimento é como despertar com o estrondo de uma porta sendo encerrada em seus limites. O corpo excita-se: as narinas abrem-se para que os pulmões resfoleguem, a adrenalina é liberada no sangue e as pupilas dilatam-se como um obturador ansioso por receber luz. É como renascer mais velho, mas apoiado sob nova ótica; a ótica do invisível, do entendimento fora da compreensão tanto espezinhada dentro dos livros. 

Fora isto, continuo usando a palavra bebericar, porque combina com qualquer coisa que está às mãos, enquanto se precisa de entendimento intelectual.

O eterno retorno dos fumantes

Não adianta fumar vários cigarros
(puro embuste)
Todo fumante sabe que o que entontece
é o primeiro cigarro no dia.

Estas coisas ridículas de um diário


Sinto-me um miserável quando apaixonado. Ontem mesmo, sem reparar no absurdo que escrevia por seu possível amor, comparei-me aos bichos mais peçonhentos que habitam a superfície da Terra.

O que eu mais tenho medo nessa vida


Não tenho medo de aranhas, sapos, cobras, baratas, percevejos...
estes eu mato com chinelo ou veneno.
O que eu tenho mais medo nessa vida,
é que você apareça do nada,
e eu o confunda
com a imagem distante
dos olhos-castanhos-de-papel-kraft
suprimindo-me sem piedade
com sua beleza.

A rotina dos amantes


Despertei novamente com o ruído de uma maçã sendo mordida. Agora já não me é mais novidade estes seus pequenos ruídos que ocupam o apartamento pela manhã. É como o tráfego de carros, a sirene da polícia, o choro intolerável da criança do vizinho, o salto alto da moradora do andar de cima.

Incrível que agora me incomode com estas coisas tão pequenas e comuns. Eu que a princípio maravilhei-me de dividir minha intimidade contigo; de sentir-me seguro sabendo que os espaços estavam sendo preenchidos com suas roupas, sapatos e outras coisas de homem.

Até a coisa mais ridícula...

(como direi isso sem ruborizar?)

Até a coisa mais ridícula, como lavar as minhas cuecas com as suas, e depois vará-las aos pares, (tamanho P e M), causava-me uma alegria tão distinta que só os casados entendem. Mas do nada não era mais distinto, era cotidiano, e dividir as escovas tornou-se intolerável. Aí não quis mais ser feliz, quis a alegria eufórica e confusa. Quis o desejo de nem saber o que desejava. Quis a deriva de outras línguas, de outros pensamentos na arrebentação das ondas.

- A arrebentação das ondas nas pedras, é a coisa mais linda de se ver!
-Sim, não há nada parecido!
-Nem nosso amor é tão belo quanto a arrebentação das ondas.
-Bobagem!

Foi quando ele arrumou suas coisas e não voltou mais.  

Despertei com o ruído de uma maçã sendo mordida.


Ainda se fossem ovos estalando na frigideira, mesclados a cantoria de alguém que eu levei para casa ontem, não acharia estranho. Eu me levantaria e me depararia com a mesa de café da manhã posta, com flores do campo no arranjo matinal, e não veria outra saída a não ser viver a sua conquista, desejando que fosse para sempre o amor ainda vindouro.

Mas eu despertei ao som da deglutição da maçã. Consegui imaginar até o modo como apoiava os cotovelos na mesa, enquanto uma das mãos segurava a cabeça descaída, e a outra, levava a maçã aos lábios, depois aos dentes, a língua, e na língua me jogava de um lado para o outro até que pensasse ser o suficiente para me engolir. Vi até como sentado na banqueta, mantinha as pernas abertas, (trejeitos masculinos), num azul-samba-canção desarrochado.

É quase como despertar com o silêncio e não saber o que fazer dele, não saber nem porque despertou se a vida parecia estagnada.  Achei de uma delicadeza próxima do absurdo ouvir tão claramente um som quase inaudível. Exatamente igual quando me abraça por trás, respira no meu pescoço, e penso ser o vento invadindo a casa por entre as frestas da porta de entrada, no entanto é apenas você se fazendo audível.

Ingenuidade


Depois de tanto tempo de casados, uma mensagem romântica enviada por engano para o celular de sua esposa, já que o nome da amante vinha posteriormente, salvou a união há muito desgastada. Ela se tornou mais doce, ele mais amável. Ambos reviviam suas ingenuidades. 

Palavrório de três versos


Parece que ao teu lado,
alcanço a graça
dos esfomeados.

Palavrório de três versos - SUOR


Parecia que te bebia
a cada beijo que a minha boca
dispensava sobre teu corpo.

Supunha-te aventureiro


Supunha-te outra coisa
parecida com
ramagem a escalar os montes;
caules a embrenharem-se 
nos hexágonos das cercas de arame farpado;
folhagens viníferas armadas sobre o pergolado;
bago de uva intumescida de vinho provado
com aroma frutado de ameixa e notas de tabaco.

Não isto aí,

quase sem ritmo

.

Intrusos


Eu que nunca soube ser singelo,
porque no improviso do tempo
existiu Chirico;
e tu que me falas de Kant
num relativismo absurdo
que me faz arder de tanta incerteza

Fetichismo


Era com a mão que tornaria o ato profano.

Coloquei-o de quatro sobre a cama
e na minha posição,
puxava o escapulário
enquanto o penetrava vagarosamente,
e, com acuidade de amante
percebia eriçarem os pelos das tuas nádegas.

Diz tu:
-Coisa mais engraçada é bunda de homem!
-Por quê?
-É peluda!

Sorrio.
-A minha não é!

Diz eu:
-Sabe como sei que você tá sentindo prazer?
-ham...
-Quando vejo os poros da tua bunda eriçarem.

Desdobre


Ficaria muitíssimo triste se a partir de então
Não lhe causasse mais espanto.
E fosse para ti, lembrança de chegada,
Sem mais surpresa de partida.

Palavrório de três versos

Se não o abraço com mais carinho,
é por medo que a vida me alcance
e eu acabe não prestando pra mais nada.

3


O que o tempo nos faz ver, são sempre as mesmas coisas só que aparentemente diferentes, porque mascaradas intentando o diverso com os pés sobre o mesmo caminho.

De uma hora para a outra tudo parece novidade. E depois de Jude Law, Joaquim Phoenix, Louis Garrel me parece o sexy symbol e o padrão de homem apropriado para amar.

Rafael Geremias