Epílogo

Tudo está aí para atender ao meu voyeurismo. Os corpos nas fotografias, nos vídeos, nas ruas, dão-se aos meus olhos como possíveis apoios às carências do sexo-amor ausente. E porque suas imagens fixam-se nos meus olhos, seria mentira dizer que todos por frações de minutos não me pertencem.
Por me pertencerem, imagino suas histórias mescladas a minha. Apaixono-me. Apaixono-me por todos. Apaixono-me pelos seus afetos, pelos seus desafetos, pelas suas dores que se espelham as minhas revelando-nos sequiosos em busca de apaziguamento.

Numa destas buscas, um garoto cruzou a esquina da minha casa: vinha “pertinente com os olhos de negrura sem fim”. Anotado isso na caderneta, juntei ao verso a “pertinência dos meus olhos famintos por alguém”. Não apenas os olhos, mas o corpo, a mente, famintos de um sentimento maior; de encontrar a justificativa perene daqueles que aceitam o desconforto dos dias como algo normal.

Convenci-me: poderia amá-lo como nunca amei ninguém, pois se amei algum dia, devo ter amado errado, ou de forma inconstante. Contigo visiono outra coisa: a constância do amor cotidiano, do amor político; até lamberia suas feridas sem aversão, dar-lhe-ia pela manhã um banho de gato, e cuidaria de todo o resto como lhe aprouvesse...
ainda estou falando de amor? Ou estou participando de uma retórica da qual não consigo mais sair?

É que através do amor eu apreendo o mundo, pois por ele afloro meus traumas, deixando-me exposto e carente de julgamento positivo daquele que no momento amo. Não mais a mãe, não mais o pai, mas Ele que não passa de uma desventura; Eu que sou ou me torno o próximo crime passional, ou a comemoração de bodas de ouro, ou o destemperado relacionamento por medo da solidão.

- falo de amor,
digo seu nome,
mas na realidade estou gritando por mim.

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Rafael Geremias