A linguagem absoluta



Na porta da minha casa
Comecei a deitar trilhos
Fiz curvas
Subi serras
Atravessei rios
Enfim olhei pra cima, acima era um prédio sem fim
Impossível de reter na minha solidão

A linguagem absoluta



- constrói estrada de ferro até minha cidade
que o trem eu compro, boto para funcionar
e estaciono na frente da sua casa.

A linguagem absoluta



Mas com a palavra escrita eu retomo o discurso e floreio com gérberas e crisântemos o m’eu cuido de ti e você de mim, pois é sabido que nosso amor é concordância ideológica: tu falas, nós escrevo.

Dedicatória

Iridescente teus olhos:
astros feitos de vidro;
pequenas bolicas caramboladas

-Que jurei nunca mais olhar.

Tuas macias bolas:
kiwis aveludados
moldáveis formas

-Que jurei nunca mais pegar. 

Face de traços másculos:
retas quebradas
de ângulos chapados

-Que jurei nunca mais pensar.

Poema de três partes
das tuas partes
Relutantes

-Que jurei não te dedicar.

Objeto de desejo

Estaremos melhores daqui alguns anos. Daqui a dez, quinze, trinta anos. Minto. Daqui à velhice. Estaremos completamente a salvos na velhice. Sem as esperas que nutríamos antes das coisas caírem. Antes que as coisas intentassem o acerto. Na velhice estaremos dispostos a nos contentar com o mínimo, a nos amar pelo mínimo, pela vaidade mínima. A vaidade mínima que nos manterá ainda inteiros de humanidade, de generosidade, de compaixão. Ainda que tenhamos nos desperdiçado por escolhas tolas, na velhice nos perdoaremos de toda a juventude que levamos, até transformaremos o erro casual de termos nos conhecido num acerto oportuno, lotérico, divino. Não sei quanto a você, mas estarei muito melhor daqui alguns anos. Quando a barba cobrir todo o meu rosto, e os outros pêlos estiverem todos ali, embranquecendo-se em suas partes definitivas; aí, serei homem ou outro homem, agora importante para mim. Comprazido das minhas falhas, dos meus acertos, das minhas inconsistências, das minhas impossibilidades. Na velhice que estarei completamente a salvo, e não precisarei ostentar ou reluzir o ouro que nunca possuí; nem ser belo, ou estar dentro do que nunca quis realmente estar. – agora, dia 22 de julho, numa sexta-feira de possível geada, afirmo: tenho esperado a velhice mais que a morte.

Pouco agora me importa a idade das coisas


Pouco agora me importa a idade das coisas
ou a idade do seu corpo
que ainda divisa entre o jovem-adulto.

Me importa é a idade das suas mágoas
e dos seus sonhos frustrados
que lhe trouxeram até mim.

Rafael Geremias