A linguagem absoluta - 38

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Tê-lo longe, mas lhe ter dentro de mim como uma promessa de misericórdia ao corpo que tanto engatinhou pela cidade e não encontrou repouso.

Tê-lo perto de mim, mas lhe ter fora de mim como uma impossibilidade perene, uma árvore em tempo de poda, algo que se extirpa, mas passado tempo, re-floresce.

À noite o aguardo como um parente que fez longa viagem, com as malas cheias de roupas e lembranças das outras cidades que visitou, contudo também em nenhuma encontrou repouso.

Mostra-me fotos de coisas belíssimas que viu, das coisas estranhas não tão belas, mas que nem por isso menos dignas de uma foto; das comidas exóticas; das drogas nas boates e bares que freqüentou; dos tantos beijos engastados em carência dispensados a qualquer um num quarto de hotel porque se sentia só.

É inegável que por esse amor intelectual tenho me tornado um psicótico controlado. Venho até parando de fumar, fazendo a barba, cortando as unhas regularmente. Por você tenho me mantido em ordem, e até querido uma vida medíocre, mas reconfortante.

(enquanto
extremos permaneço na linha claro sereno obscuro seguro de mim.
já nem o espero corpo que faria
perceptível
meu
perceptível
amor
meu
amor
questão de percepção física)

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Rafael Geremias