A linguagem absoluta - 37


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(Observação)

O que havia nos seus olhos hoje pela manhã era de um negro de fundura dominante pululando angústias que muito queria que fossem minhas sem tanto mistério: ainda me sou capaz de dar afeto.

(Observação)

O que havia nos seus olhos hoje pela manhã era o vazio das coisas que nos surpreendem, e aí nos vemos tão diminutos e inofensivos diante do que nos cerca que pelo resto do dia nos desfazemos sinestesicamente.

(Observação)

O que havia nos seus olhos, havia também no seu corpo e há no meu corpo em dias assim: ando de gatinhas pelas ruas da cidade, pelo asfalto borbulhante, pelas poças d’água. Vou de ponta a ponta pelos tubos de esgoto.

Certa vez coloquei um bicho cabeludo na boca, e um líquido verde pululou como suas angústias hoje pela manhã; por sorte não me queimo porque a minha mãe me socorreu a tempo. Vou de gatinhas. Subo a escada de gatinhas. Entro no chuveiro passando os dedos pelas juntas que ligam os ladrilhos (argamassa de contato). A água derramada soergue o meu corpo e mesmo depois, o mundo continua a me pertencer sem me comunicar vantagem alguma.

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Rafael Geremias