A linguagem absoluta | Variação para um fim | Fim

A linguagem absoluta é dedicado a Natássia Dagostin Alano.

Neste post encerro a série de textos coletados como A linguagem absoluta, que apesar do nome, não deseja ser entendida como uma análise da linguagem almejando certa perfeição ao comunicar o poema ou a prosa; A linguagem absoluta é mais um deixar fluir, deixar sentir, deixar despretensiosamente que as imagens se relacionem por elas mesmas desconsiderando qualquer erro de construção na sua narrativa.

Aos que acompanharam desde o primeiro capítulo e resistiram até aqui, meu agradecimento singelo e nada mais. Aos que ainda não leram e chegam aqui pelo fim, desconsidere este fim, porque A linguagem absoluta acabou para mim antes do último poema, ela chegou antes de mim e a mim não se quis mais dar.

Abraços,

Rafa.

Variação para um fim
Depois que o poema me aconteceu,
transplantei quantos corações pude
até que fosse preciso transplantar o meu também.

- porque é hora de arrefecer
tudo o que em mim
era dos outros

- porque é hora de amadurecer

a ambigüidade do verso
na ementa contínua da lei

e ser menos que o sonho
e ser menos que o homem.

Fim

Na tentativa de comprimir meu coração:
ter corpo de sapo
o corpo que me queriam:
Eu desisti.

Usurpei o corpo de um elefante:
nele fiz dos meus sonhos inflados
a savana da minha fantasia.

A linguagem absoluta - 38

38

Tê-lo longe, mas lhe ter dentro de mim como uma promessa de misericórdia ao corpo que tanto engatinhou pela cidade e não encontrou repouso.

Tê-lo perto de mim, mas lhe ter fora de mim como uma impossibilidade perene, uma árvore em tempo de poda, algo que se extirpa, mas passado tempo, re-floresce.

À noite o aguardo como um parente que fez longa viagem, com as malas cheias de roupas e lembranças das outras cidades que visitou, contudo também em nenhuma encontrou repouso.

Mostra-me fotos de coisas belíssimas que viu, das coisas estranhas não tão belas, mas que nem por isso menos dignas de uma foto; das comidas exóticas; das drogas nas boates e bares que freqüentou; dos tantos beijos engastados em carência dispensados a qualquer um num quarto de hotel porque se sentia só.

É inegável que por esse amor intelectual tenho me tornado um psicótico controlado. Venho até parando de fumar, fazendo a barba, cortando as unhas regularmente. Por você tenho me mantido em ordem, e até querido uma vida medíocre, mas reconfortante.

(enquanto
extremos permaneço na linha claro sereno obscuro seguro de mim.
já nem o espero corpo que faria
perceptível
meu
perceptível
amor
meu
amor
questão de percepção física)

A linguagem absoluta | Variação para um fim - 40

Variação para um fim

Tantos corações arrefeceram-se por minha causa
Causa que é o verso
O poema acontecido
no homem-transplantado-bicho.

Outros tantos foram que excitei
e aos seus sonhos, como aos meus
dei o pé-direito de um arranha-céu
dei o corpo de um elefante.

A linguagem absoluta - 39

39

A primeira vez que bateram a porta de casa
estava sentado com um pijama esquisito,
uma xícara de chá verde
e a vontade inconveniente de que um poema me acontecesse.

Um feito da impossibilidade:

Abri a porta:
O grotesco sonhador no alpendre
implorava-me outro corpo que alojasse seu coração
que dilatado de frustrações por ora desistia.

- diminui meu coração
faz caber no corpo de pombo
de galinha, de gato,
de peixe... diminui meu sonho!

- mas só tenho poesia!

Um feito da impossibilidade:

Na biblioteca
uma cirurgia de emergência:
abri o peito do homem
abri o peito do pombo
comprimi o coração do homem
aumentei o coração do pombo

Transplantei

O pombo no corpo do homem
O homem no corpo do pombo
O pombo desolado pelo vazio do homem
O homem arrefecido sem sonhos no corpo do pombo.

A linguagem absoluta - 32


Mania de dizer que poeta é tudo triste:
(Gente sem coração quem diz isso)
Ele só participa de uma alegria que a maioria desconhece.

A linguagem absoluta | Poema Imagem - IX

































  
(...)
Tinha o corpo de se dar aos pobres e não sofria por isso, exceto quando se punha a sonhar que também poderia servir aos ricos.
(...) 


A linguagem absoluta - IX

A linguagem absoluta - 37


37

(Observação)

O que havia nos seus olhos hoje pela manhã era de um negro de fundura dominante pululando angústias que muito queria que fossem minhas sem tanto mistério: ainda me sou capaz de dar afeto.

(Observação)

O que havia nos seus olhos hoje pela manhã era o vazio das coisas que nos surpreendem, e aí nos vemos tão diminutos e inofensivos diante do que nos cerca que pelo resto do dia nos desfazemos sinestesicamente.

(Observação)

O que havia nos seus olhos, havia também no seu corpo e há no meu corpo em dias assim: ando de gatinhas pelas ruas da cidade, pelo asfalto borbulhante, pelas poças d’água. Vou de ponta a ponta pelos tubos de esgoto.

Certa vez coloquei um bicho cabeludo na boca, e um líquido verde pululou como suas angústias hoje pela manhã; por sorte não me queimo porque a minha mãe me socorreu a tempo. Vou de gatinhas. Subo a escada de gatinhas. Entro no chuveiro passando os dedos pelas juntas que ligam os ladrilhos (argamassa de contato). A água derramada soergue o meu corpo e mesmo depois, o mundo continua a me pertencer sem me comunicar vantagem alguma.

Rafael Geremias