A linguagem absoluta - 36


36

Às vezes ponho um sorriso no rosto igual àqueles que são contentes. Fico o dia todo assim, sentado, assistindo a televisão sem entender nada, balançando a cabeça, aceitando toda essa vida que segue afora como se fosse um milagre alcançado. Nem preciso fazer mais nada, pois tudo vem a mim como vêm as coisas que sempre nos pertenceram. Já não ando mais doente como vinha estado, já nem me envergonho quando todos os meus amigos escovam seus dentes ainda boca, e eu seguro a dentadura e a esfrego com dedicação mantendo-a limpa. Se a casa está organizada, ótimo, senão nem reclamo da roupa suja jogada no chão ou da louça que fiquei com preguiça e não lavei. Deixo tudo para depois, depois que farei com amor ditoso. Porque já sou sem complexos e vivo da honestidade de espírito.

A linguagem absoluta | Poema Imagem - 22



































Pois sim, o limite do macho-fêmea repousa na diferença de volumes. Bem sei que de andrógino não tens nada, mas foge ao meu controle pensar com quais membros farás tangível meu amor tão intelectualizado por ti.

A linguagem absoluta - 22

A linguagem absoluta - 34

34

Quando viro a esquina é com o coração apertado de expectativas. Expectativa de descobri-lo casualmente também virando a mesma esquina com as mesmas expectativas lhe apertando o coração. (surpresa) Há o cumprimento, o olhar vindo cabisbaixo, o sorriso distorcido pelo escorço. Falamos de algum poeta (um poeta-arquiteto-urbanista qualquer que nos justifique a necessidade das esquinas) depois um cantor novo que você acabou de descobrir e acha mais que vital que também eu deva conhecer. Depois se despede passando a mão na minha cabeça e enquanto vai se perdendo na perspectiva, falo baixinho que te amo.

A linguagem absoluta | Poema Imagem - 22




































(...)
em que fantasia te abrigava, ou qual música sublimava teu pensamento antes de te despires, despi-la ou despi-lo; beijá-la, beijá-lo, envolvendo-lhes nos teus braços. Ai, que tudo isso me põe indefeso, porque não sei da tua sexualidade: se com tuas mãos enrijece o mamilo de um seio ou de um peito.
(...)

A linguagem absoluta | Poema Imagem - V

(...)
Enfim olhei pra cima, acima era um prédio sem fim
Impossível de reter na minha solidão
(...)
Mas
Na minha casa, na minha solidão
Maquinista,
só tua promessa como
habitante me habitou.
(...)

A linguagem absoluta - 29, 30 e 31

29

Tom
sobre
Tom

A cadeira branca
dialoga com a parede branca
com a sutileza do 

branco 
sobre 
branco.

30

Azul
cetim
Azul

Você é capaz de perceber?
Você que já é tão físico na matéria que se produzem os sonhos.

31

Na realidade só estou precisando de afeto
feito 
Rimbaud e Verlaine.

A linguagem absoluta - 28

28

Olha que isto já é coisa de psicólogo; que isto aí vem desses livros, filmes e espetáculos que tanto consome. Mas como pode tudo isso ser verdade, se por precaução assisto filmes de ação, com assassinatos feitos sem muitos eufemismos. Romances só àqueles onde a mocinha e o mocinho por algum motivo encontram outros mocinhos e mocinhas para viverem suas paixões. Só os realistas podem construir uma sociedade civilizada, porque são sempre críticos e nunca se deixam levar pela pele morena de uma jovenzinha, e se o fazem é por chacota. Eles todos têm razão: como é preciso deixar de ser piegas; como é preciso escrever sobre tudo e não sentir nada; como é preciso ser sempre intelectual. 

-Coloco a roupa de corte mais seco e negro, passo a pertencer a um clã global inexistente de vínculos.

A linguagem absoluta - 25 e 27

25

Se te apresentas pela lateral;
vejo-te longilíneo
como um risco de fumaça
largado no céu pelo avião:
prendes-me em fascínio.

Agora,
se te apresentas de frente,
vem como uma parede sem sustentação
esmagar meu corpo:
tábua rasa
sobre
tábua rasa
recriminando-me a vãos obscuros
de indefinição:

- não gosto de compreendê-lo por inteiro.

27 

No fundo não estou triste. 
Bem no fundo nem estou nada. 
Foi só teu NÃO com a força de um SIM 
que ainda reverbera na pele. 

É só na superfície que posso senti-lo, 
uma camada abaixo, 
já és indefinido.

A linguagem absoluta - 26

26 

(a fita de cetim é o fetiche que amarra o nosso amor) 

Num desvario entoei teu nome com a força de um sortilégio. 
Com a força da Língua do P.. 
Com a força de um canto litúrgico no subir dos braços conclamando benção. 
Com a força do desmanchar da hóstia enquanto apascentam-se as dores nos seus devidos cercos. 

Era o momento mais aguardado em que nas trombetas dos arautos soariam teu nome, a tua chegada, a tua fita azul reverberando em sinal de poder. Os tapetes dispostos garantindo-te a imponência dos reis. E eu, sempre da mesma forma, prostrado esperava tua aparição. 

Cantaram teu nome, mas como o Maquinista, tu mandastes pajens. Para não macular tua imagem generosa, lançastes da janela mais alta o aceno com a mão direita sem fita abafando a polvorosa popular. 

(sim, a fita de cetim era o fetiche que amarrava nosso amor) 

Ao passo que teu gesto esvaecia, - desaparecer absurdamente me dói -, e a idéia de que te deitavas com tuas cortesãs, - absurdamente me doía tal traição -, batia com a testa no tapete para rechaçar teu semblante da minha mente; e com um corte heráldico, segui como um forasteiro. Abri passagens, conheci lugares, fundei meu reino, e aqui depositei minha solidão. 

Saturno

Não que me falte matizes
mas prefiro que minha vida
se construa em preto e branco;
há um quê de elegância conferida
por este minimalismo.
Cor nos engana, tecnicoloriza-nos,
mente-nos um mundo mágico
palco de lata-palha-Dorothy-coração,
caminho dos tijolos amarelos e
sapatinhos feéricos.
Só numa plúmbea escala é que existimos,
revestidos de um película tênue
que destaca a transparência das taças
herdadas como o sêmen-óvulo branco que
me fez como sou

homem saturnizado pelos anéis de Cronos
paralisado no tempo de um
                                       clique.

A linguagem absoluta - 23

23

Descubro o título. Ele fala de mim. Mais adiante fala de nós e permanece desconhecido esse nós que ainda não existe. Queria te dedicar o que escrevo sem abreviações. Antes desejaria estar escrevendo cartas e as remetendo-te por correio. Mas não posso, seria inconveniente e o meu maior medo é o de ser invasivo na tua presença. Então, vou me contando aqui, e compondo imagens seguras até o dia em que eu possa te chamar pelo nome, e conseqüentemente, quando fulgurarmos numa paixão, chamar-te de meu amor.

A linguagem absoluta - 22

22

Vou te absorvendo pelas beiradas. Pelo seu cumprimento tímido largado nos corredores. Pelo modo como as juntas do teu corpo levam-te ao movimento. Pelo gosto literário que mantém, e eu, com olhos treinados, descubro o título. Imagino quantos amores fictícios já te submeteras; em que cenário, em que fantasia te abrigava, ou qual música sublima teu pensamento antes de te despires, despi-la ou despi-lo; beijá-la, beijá-lo, envolvendo-lhes nos teus braços. Ai, que tudo isso me põe indefeso, porque não sei da tua sexualidade: se com tuas mãos enrijece o mamilo de um seio ou de um peito. Pois sim, o limite do macho-fêmea repousa na diferença de volumes. Bem sei que de andrógino não tens nada, mas foge ao meu controle pensar com quais membros farás tangível meu amor tão intelectualizado por ti.

Sobre o novo layout: sequência

Seqüência

Encontram-se num beijo.
Depois se afastam.
Ficam sozinhos.
Reencontram-se.
Re-beijam-se.
Ele se despede dEla.
Ela encontra Outro.
Outro a beija no rosto.
nEla fica um pouco do beijo do Outro.
Despedem-se.
Ele e Ela se reencontram.
Ela o beija com gosto do Outro.
Ela não suporta.
Ela abandona Ele.
nEle fica o gosto dEla.
nEla o gosto dEle e do Outro.
No Outro não ficou gosto dEla. 

Rafael Geremias