A linguagem absoluta - XX e 21

XX

Cena: dependurar um quadro na parede.
Martelo – prego – prego – martelo – prego - superfície – argamassa – batida – furo – batida – furo – batida – furo – inércia – mesa – martelo.

21

Faz algum tempo desde o momento que dependurei tua imagem na parede. Tanto quanto a construção dos bonecos de barro que se esfacelaram pelo vento. Tanto quanto essa saudade que persiste imanente naquilo que ainda não tivemos. Todos os dias o sol incide no quadro e tua imagem não esvaece, não borra. Aí rasgo e ponho no lixo, e por alguns dias digo que não amo, que é coisa do passado, que o nosso futuro é impossível. Compreendo uma nova trajetória. Caminho por ela de forma tão positiva que me parece estar culminando num novo céu. Isto bloqueia com segurança qualquer espécie de vínculo contigo. E vou reinaugurando a linguagem, tentando me desvencilhar da base romântica que me movia. Não consigo, é muito difícil estar no meu tempo. O mais perto disso aconteceu quando construí um trem bala para dar gosto de sofisticação. Sentado, assim como todos os outros passageiros, viajamos numa velocidade absurda entre as cidades, mas quando regressei, era latente a vontade de ter conhecido quem controlou o meu percurso e nunca sequer tomou uma xícara de café comigo.

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Rafael Geremias