A linguagem absoluta - XVI

Sento. Ele já está sentado. Eu o cerco, ele não percebe. Quando percebe, desvio. Volto a olhar temerariamente. Jeans azul escuro sempre justo verticalizando suas pernas. Abaixo, a meia cinza-mescla limitando o espaço entre a calça e o tênis. Acima, a camiseta com estampa política, musical, artística, lisa. O engraçado é sua mochila que parece conservada desde o ensino fundamental agora usada com despojo na faculdade. As voltas da fitinha azul no seu punho direito comprimem os pêlos formando outro desenho. 

Seu pescoço ligeiramente aumenta o tamanho da sua cabeça. Barba no rosto. O bigode crescente sobre o lábio que tanto extasia, quanto me extasio sexualmente com o estudo de cabeça de Victor Meirelles. Quando o vejo de lado, o nariz desce retilíneo até o meio dos olhos, onde quebra abruptamente até a ponta, perfeitamente desenhada como ponta de lâmina. O olhar levemente nipônico ou hispânico, olhar que não me certifica ao certo sua descendência. Cabelo desgrenhado, meio ondulado, pretíssimos fios, recobre as orelhas. 

Levanta. Eu continuo sentado. Observo-lhe o movimento anatômico do seu corpo. Pé frente pé, pernas descendo degraus, o tronco todo e os outros membros sofrendo diferenciações nas formas. Porque tudo em você é tão pertinaz e arrojado, que não lhe amar, mesmo que de longe, me seria impossível.

Um comentário:

  1. muito bom cara *.* nossa...
    e essa parte então... "Porque tudo em você é tão pertinaz e arrojado, que não o amar, mesmo que de longe, me seria impossível."
    parabéns!!!

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Rafael Geremias