A linguagem absoluta - IX

IX 



Tinha o corpo de se dar aos pobres, e sequer sabia o que significava “se dar aos pobres”. Mas a proposta da assertiva far-se-ia valer por si exatamente como na bíblia se diz sobre “dar pérolas aos porcos”. Tinha o corpo de se dar aos pobres e não sofria por isso, exceto quando se punha a sonhar que também poderia servir aos ricos. Tinha o corpo de se dar aos ricos; a pele de delicadeza próxima da aflição de um possível rasgo, caso o vestido que lhe ralhasse não fosse de seda. Seda era o máximo de bom gosto, assim como a lagosta, o champanhe, o caviar e o Ferrero Rocher que nunca experimentou, mas como anfitriã, era mais que conveniente oferecer aquilo que nunca experimentara; como também lhe parecia conveniente e deleitável saber pronunciar Belle Époque relembrando romance machadista: falava francês, estudava piano, vestia bela renda branca para contrastar contra o estofado florido que imitava perfeitamente o Rio de Janeiro quando usurpado por esse estrangeirismo. Achava a coisa mais elegante viver de estrangeirismos, e se não tivesse o bolso de se dar aos pobres, na sua casa só entraria embutido importado, não essa falsificação de salsicha tipo “Viena” feita a dez quilômetros. Tinha o corpo de se dar aos pobres, só fazia-se de desentendida para não matar o gentleman que haviam lhe prometido.

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Rafael Geremias