A linguagem absoluta - XX e 21

XX

Cena: dependurar um quadro na parede.
Martelo – prego – prego – martelo – prego - superfície – argamassa – batida – furo – batida – furo – batida – furo – inércia – mesa – martelo.

21

Faz algum tempo desde o momento que dependurei tua imagem na parede. Tanto quanto a construção dos bonecos de barro que se esfacelaram pelo vento. Tanto quanto essa saudade que persiste imanente naquilo que ainda não tivemos. Todos os dias o sol incide no quadro e tua imagem não esvaece, não borra. Aí rasgo e ponho no lixo, e por alguns dias digo que não amo, que é coisa do passado, que o nosso futuro é impossível. Compreendo uma nova trajetória. Caminho por ela de forma tão positiva que me parece estar culminando num novo céu. Isto bloqueia com segurança qualquer espécie de vínculo contigo. E vou reinaugurando a linguagem, tentando me desvencilhar da base romântica que me movia. Não consigo, é muito difícil estar no meu tempo. O mais perto disso aconteceu quando construí um trem bala para dar gosto de sofisticação. Sentado, assim como todos os outros passageiros, viajamos numa velocidade absurda entre as cidades, mas quando regressei, era latente a vontade de ter conhecido quem controlou o meu percurso e nunca sequer tomou uma xícara de café comigo.

A linguagem absoluta - XIX

XIX

Ora desponta e logo se trancafia em mim uma variedade de personagens surgidos de suas próprias histórias, sem passado aparente. Ora macho, ora fêmea, ora macho-fêmea. Mas alguém sempre percebe, e no seu direito de bandeirante, descasca-me como se desfolha cebolas.

A linguagem absoluta - XVIII

XVIII

Pertinaz em mim é o que insiste incomunicável e inacessível subjugado a cantos obscuros. Diferente de ti já tão dito, citado, repassado por ser tão mais material que eu. Eu que vivo de despontares superficiais e imersões substanciais. 

Citação:
“Porque tudo em você, Maquinista, é tão pertinaz e arrojado, que não te amar, mesmo que de longe, me seria impossível.”
Citação:
“Talvez a linguagem do amor seja exatamente esta, o incomunicável em mim achando esteio nas tuas calças coladas ao corpo.”

Sinestesia

É preciso que o poema estale na boca e no palato exploda
que nos olhos evapore e derrame
ascendendo aos ouvidos
e encharcando o corpo.

A linguagem absoluta - X


Talvez eu me acostume ao amor que tu dispensas. Amor já repetido, plácido, bucólico, com aspecto de coisa nem boa nem má como tudo aquilo construído pelo tempo. Tipo de amor-objeto que fica sobre a mesa eternamente se dando aos olhos, mas que não permite mais a mão. 
Talvez eu me acostume ao teu já costumeiro amor, assim de súbito como de súbito te amo e amo outro. Outro que me atualiza. Outro que me é a própria vida abrupta abrindo passagens, comendo-me com afeto de descoberta de terra fértil. Outro que por dois dias fecunda-me com tubérculos de delicadezas mil e na colheita extrai sem esforço essa minha riqueza resignada na tua presença.    

A linguagem absoluta - IX

IX 



Tinha o corpo de se dar aos pobres, e sequer sabia o que significava “se dar aos pobres”. Mas a proposta da assertiva far-se-ia valer por si exatamente como na bíblia se diz sobre “dar pérolas aos porcos”. Tinha o corpo de se dar aos pobres e não sofria por isso, exceto quando se punha a sonhar que também poderia servir aos ricos. Tinha o corpo de se dar aos ricos; a pele de delicadeza próxima da aflição de um possível rasgo, caso o vestido que lhe ralhasse não fosse de seda. Seda era o máximo de bom gosto, assim como a lagosta, o champanhe, o caviar e o Ferrero Rocher que nunca experimentou, mas como anfitriã, era mais que conveniente oferecer aquilo que nunca experimentara; como também lhe parecia conveniente e deleitável saber pronunciar Belle Époque relembrando romance machadista: falava francês, estudava piano, vestia bela renda branca para contrastar contra o estofado florido que imitava perfeitamente o Rio de Janeiro quando usurpado por esse estrangeirismo. Achava a coisa mais elegante viver de estrangeirismos, e se não tivesse o bolso de se dar aos pobres, na sua casa só entraria embutido importado, não essa falsificação de salsicha tipo “Viena” feita a dez quilômetros. Tinha o corpo de se dar aos pobres, só fazia-se de desentendida para não matar o gentleman que haviam lhe prometido.

A linguagem absoluta - XII e XIV

XII

Absolutamente que não acredito em Deus. Se por acaso falo tanto em Deus é pra evitar pensar tua ausente audição e a própria ausência em si. Não, não me tornarei crente, nem me encherei de beatices, porque isso faz mal. Mas é que se não houver alguém de imediato para me punir, depois para me perdoar, depois um céu para alcançar, o corpo cai em desgraça perceptível.

XIV

A vassoura vermelha dialoga com o rodo azul no espaço que é a cozinha. A cozinha conjuga verbo com outro cômodo, depois o apartamento, a cidade, logo o universo. É tudo tão delimitado que não sei mais para onde correr, se com a palavra tudo tem começo, meio e fim.

A linguagem absoluta - XVII

Nem havia nascido e já me roia o cérebro o verme do romantismo. Os reis e rainhas de um país longínquo misturavam-se aos boitatás, as mulas-sem-cabeça, ao caboclo desfiando fumo do meu país. Depois me disseram que tudo era bobagem de guri. Paragem de fantasia que não me era mais pertinaz depois de crescido. Que eu tinha que parar de mentir e tomar rumo na vida. 

Mas como parar de sonhar, se foras tu quem me colocou garrado num trem anacrônico que não passa mais por aqui? O que posso fazer é embotar o pensamento com trabalho, estudo, família e (deus) pílula no coração. E com voz profética anunciar nos púlpitos do mundo que não sofro mais, quando silenciosamente fica só comigo essa saudade de ti, Maquinista, guiando teu cavalo de ferro por entre as serras para chegar até mim.

A linguagem absoluta - XVI

Sento. Ele já está sentado. Eu o cerco, ele não percebe. Quando percebe, desvio. Volto a olhar temerariamente. Jeans azul escuro sempre justo verticalizando suas pernas. Abaixo, a meia cinza-mescla limitando o espaço entre a calça e o tênis. Acima, a camiseta com estampa política, musical, artística, lisa. O engraçado é sua mochila que parece conservada desde o ensino fundamental agora usada com despojo na faculdade. As voltas da fitinha azul no seu punho direito comprimem os pêlos formando outro desenho. 

Seu pescoço ligeiramente aumenta o tamanho da sua cabeça. Barba no rosto. O bigode crescente sobre o lábio que tanto extasia, quanto me extasio sexualmente com o estudo de cabeça de Victor Meirelles. Quando o vejo de lado, o nariz desce retilíneo até o meio dos olhos, onde quebra abruptamente até a ponta, perfeitamente desenhada como ponta de lâmina. O olhar levemente nipônico ou hispânico, olhar que não me certifica ao certo sua descendência. Cabelo desgrenhado, meio ondulado, pretíssimos fios, recobre as orelhas. 

Levanta. Eu continuo sentado. Observo-lhe o movimento anatômico do seu corpo. Pé frente pé, pernas descendo degraus, o tronco todo e os outros membros sofrendo diferenciações nas formas. Porque tudo em você é tão pertinaz e arrojado, que não lhe amar, mesmo que de longe, me seria impossível.

A linguagem absoluta - XV

XV

Arrefecer o coração
Sem que precise
Transpassá-lo
Pela faca

Arrefecer o coração
Sem que precise
Transplantá-lo
Para outro corpo.

Arrefecer o corpo
Sem que precise
Refugiá-lo
Em exílio poético

Arrefecer a poesia
Antes que o coração
Cresça demais
E precise transportá-lo
Para o corpo de um
Elefante.

A linguagem absoluta - XIII

A feiúra me seduz.

Não é sem receio que afirmo isto.

A feiúra me seduz.
Seduzido,
conduzo-me pelos seus lábios leporinos,
arrepio-me o pêlo de tanta estranheza;
delicio-me num prazer dos demônios
como tudo o que é feito sem pudor.

O pudor só me vem depois em lembrança,
(vergonha de contrição)
por ter pecado contra Deus e toda a humanidade.
Eu, de boca perfeita como a barroca boca de Deus,
deveria rejeitar o lábio partido,
o lábio assimétrico nascedouro de caos.

Mas que faço eu se o belo não contenta o corpo
E o bom gosto
Ultraja todas as formas de amor?

A linguagem absoluta - XI

XI

Faz-me perguntas
Eu
Rápido
acho respostas
digo sim
digo não
abro reticências
saio dos extremos.

Recupero discurso.

Falo:

Depois a gente pensa o mundo
Depois a gente ganha o mundo
Vem cá benzinho
Dá carinho “ni’mim”
que dou carinho “ni’tu”.

A linguagem absoluta - VIII

Até a linguagem pode falhar. E falha. E não me surpreendo mais. E foi-se o tempo de surpresa desde então. E tristemente pergunto-te. E com todos os tês (Ts). E com o indicador apontando-te o teu tu. E Inquirindo-te o próximo E. O próximo E repleto de polissíndetos que com mestria alquímica transmuta o meu desamor em amor manifesto em afeto. E tu também fazia questão de me lembrar da ferocidade da letra T; de como se deve ter cuidado ao lidar com ela, coisa de TaTo. Pelo seu inevitável anseio por moradia, faz de todos os cantos da casa sua tocaia, come da nossa comida, toma da nossa bebida, até que por fim distorce toda a nossa linguagem. E nessa inadequação de discurso, tu vai me falando coisas e eu fingido que escrevo. Até a linguagem pode falhar. E falha. E não me surpreendo mais. E foi-se o tempo de surpresa desde então. E tristemente pergunto-te. E com todos os tês (Ts). E com o indicador apontando-te o teu tu. E Inquirindo-te o próximo E. O próximo E repleto de cordas, ganchos, anzóis, que amarram, prendem, içam... o que você não fez, porque o próximo E do nosso amor repousava a espreita de um T que tristemente inter-calava-se num assíndeto.

Rafael Geremias