A linguagem absoluta - V

V

De desejosas aparições
Fui fazendo meus finitos
Levantei uma casa, outra casa,
Logo era bairro, outro bairro
Logo cidade e tão logo
Não havia pessoas
Na minha solidão

Construí bonecos de barro
E deixei ao sol para que
Adquirissem vida
De nada adiantou
O barro ia trincando
O vento levando
O barro ia se acumulando sobre a cidade, sobre a cidade meu susto
A cidade meu susto pau-a-pique.

Quando na minha dor mais aguda
Mais agreste, mais pulverizada, minha lágrima enlameada
que se se macerasse com erva aromática, não me servia de emplasto.
Quando na minha dor mais aguda
mais agreste, mais molhada
Um pombo correio numa descida retilínea
Veio pousar sobre a minha mão:
- constrói estrada de ferro até minha cidade
Que o trem eu compro, boto para funcionar
e estaciono na frente da sua casa.

Na porta da minha casa
Comecei a deitar trilhos
Fiz curvas
Subi serras
Atravessei rios
Enfim olhei pra cima, acima era um prédio sem fim
Impossível de reter na minha solidão

Quando na minha tepidez mais absurda,
Olhei para baixo
Atravessei rios
Desci serras
Fiz curvas
E à porta da minha casa sentei.
Quando na minha esperança
Apertei contra o peito o telegrama do pombo, a promessa do trem

Ao meio dia fiz almoço, porque poderia ter fome
A viagem foi longa
A noite me pus deitado sobre a cama, porque também você poderia ter fome
A viagem foi longa e tua saudade por mim
imensa

Durante dias esperei
E quando cansado de esperar
Um barulho de ranger os dentes
Batia nos trilhos
Batia na promessa
Logo era fumaça, logo era trem
Logo era chegada
Logo eram pessoas tomando a cidade

Mas
Na minha casa, na minha solidão 
Maquinista, 
só tua promessa como 
habitante me habitou.

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Rafael Geremias