A linguagem absoluta - VII

VII

Depois vem tu deter o motivo das minhas lágrimas com teus projetos vanguardistas. Vem tu me retirar os ésses da conjugação do meu verbo para que não te ofenda em tua necessidade imediata. Para isso, me solicita que antes de ser tentado pela sonoridade dos ésses, que eu recorra, como se recorre a Orixá batendo a testa pro santo, com humildade e adoração monástica ao particípio. Ainda não contente, me pede que eu repita pretéritos mais que perfeitos como prova de re-instaurar-me na linguagem pelo zero. Novamente vem tu deter o motivo das minhas lágrimas repetidas pela não adaptação dentro da tua conjugação; enlaça-me por trás como de costume, e sobre a catacrese ao pé do meu ouvido me propõe outro corpo habitante de outra casa noutra cidade de um país mais distante como fugitivo-emigrante para o novo. O novo como possibilidade. O novo como ilusão catártica de engendrar, ajustar, consertar, lubrificar. O novo de secar as lágrimas.. agora tinha outro corpo, tinha dois. Tinha duas bocas e tudo o que comumente encontrado no primeiro, rejuntado e aperfeiçoado no segundo. Novo discurso sem ésses. Eu adaptado? Tudo tão farto de perfeição, perfeição única sentida gozada por ti, que arquiteto de mim via-se proclamador do meu corpo como província rural e o atacava com seus ares de urbanidade. E não me escondia isso, nem jogava em cima blefes, Eu gritei Eu adaptado? (imerso demais para ir contra) Eu adaptado em dois corpos e vice-versa de tua megalomania que na minha ignorância foi me entardecendo. Meus dois corpos com vontades plurais de ésses. Tu, tu, sempre tu, com teu sorriso de convencer cachorros também a sorrirem, constantemente me remodelava, remodelava o outro corpo, outro que mais doía, - até ficar saciado -, outra que mais doía: arrancou-me os dentes da boca errada, a outra boca, – até ficar saciado -. Eu entardecido sobre o teu corpo e inútil a qualquer outro, também lhe sorria banguela – até ficar saciado. Depois vem tu deter o sorriso banguela com uma prótese dentária, porque tu, sempre tu, covarde utópico vanguardista do meu corpo, só sabia suplantar a feiúra última que me fazia rir.

A Linguagem absoluta - VI


VI

Irrompe de Gustav Klimt O Beijo que em hidrocor e papel sulfite eu lanço. Lanço também o paradoxo de que existe uma tribo que desconhece o homem ocidental e sua cultura, mas que partilha de uma linguagem absoluta e por isso tenha no centro do seu espaço um totem também denominado de O Beijo.

-Original ou não, para mim tem sido inédito.

Pergunta para Adélia Prado

Se repetires singelo, singelo, singelo
E eu: sois belo, belo, belo
é possível que na aflição da palavra
te tornes bela e eu singelo?

A linguagem absoluta - V

V

De desejosas aparições
Fui fazendo meus finitos
Levantei uma casa, outra casa,
Logo era bairro, outro bairro
Logo cidade e tão logo
Não havia pessoas
Na minha solidão

Construí bonecos de barro
E deixei ao sol para que
Adquirissem vida
De nada adiantou
O barro ia trincando
O vento levando
O barro ia se acumulando sobre a cidade, sobre a cidade meu susto
A cidade meu susto pau-a-pique.

Quando na minha dor mais aguda
Mais agreste, mais pulverizada, minha lágrima enlameada
que se se macerasse com erva aromática, não me servia de emplasto.
Quando na minha dor mais aguda
mais agreste, mais molhada
Um pombo correio numa descida retilínea
Veio pousar sobre a minha mão:
- constrói estrada de ferro até minha cidade
Que o trem eu compro, boto para funcionar
e estaciono na frente da sua casa.

Na porta da minha casa
Comecei a deitar trilhos
Fiz curvas
Subi serras
Atravessei rios
Enfim olhei pra cima, acima era um prédio sem fim
Impossível de reter na minha solidão

Quando na minha tepidez mais absurda,
Olhei para baixo
Atravessei rios
Desci serras
Fiz curvas
E à porta da minha casa sentei.
Quando na minha esperança
Apertei contra o peito o telegrama do pombo, a promessa do trem

Ao meio dia fiz almoço, porque poderia ter fome
A viagem foi longa
A noite me pus deitado sobre a cama, porque também você poderia ter fome
A viagem foi longa e tua saudade por mim
imensa

Durante dias esperei
E quando cansado de esperar
Um barulho de ranger os dentes
Batia nos trilhos
Batia na promessa
Logo era fumaça, logo era trem
Logo era chegada
Logo eram pessoas tomando a cidade

Mas
Na minha casa, na minha solidão 
Maquinista, 
só tua promessa como 
habitante me habitou.

Rafael Geremias