Capítulo 5 - Marta

Amigos leitores, 
Ando meio ausente em relação a postagem de novos poemas e desenhos, mas é que tenho me dedicado a escrever Marta, o que não é uma tarefa fácil, apesar de ter o enredo todo formado e as características que a tornam um personagem vivo. Então publico um capítulo do livro como aperitivo.
Abraços,
Rafa


Capítulo 5

Depois que se formou, manteve-se o mais distante possível dos seus relacionamentos. Casualmente um ou outro amigo de faculdade a convidava para sair, mas sempre se desculpava com os ensaios da orquestra. Novos contatos se não fossem profissionais não os queria. Acreditava ser intransponível, intelectual e elitizada para ser como os demais. 

Quando se sente só, cozinha para si mesma ao som de Ravel, toma um pouco de vodka e até se permite erguer os braços e balançá-los tremulamente, pois mesmo bêbada jura que há milhões de olhos a julgando. Felizmente, vodka a faz dormir. Quando se sente muito só, vai às compras e sorri quando a vendedora lhe recepciona surpresa: nossa Marta, quanto tempo que você não aparece? Ela responde como se é de esperar em relacionamentos comerciais: ando muito ocupada com o trabalho, mal tenho tempo para comer, quem dirá me vestir. No fim, sai da loja com vestidos e sapatos para usar nas noites de apresentação e sente certa epifania de realização. Mas quando se sente muitíssimo só e as duas opções anteriores não lhe satisfazem, Marta fuma e chora sobre o seu mundo metódico intumescendo-o de matéria orgânica e transgressão. 

Os pés para fora, pernas, tronco, cabeça, cotovelo, braço-antebraço. As mãos explicitam-se por último: Marta ultrapassa seus limites com o toque, porque lhe cobra a proximidade de outro corpo. O toque seu maior receio, era também sua necessidade imediata. Marta enfiaria suas mãos no mundo. 

A linguagem absoluta

IV

Tenho me perguntado o que venho matando, adquirindo ou sustentando com o tempo. Se o que eu tenho quisto é puramente cultural, familiar ou individual, porque às vezes, por empatia estética eriçando os pelos do braço, aproprio-me inutilmente do que não é meu. E de quem é? Se alguém, também por empatia estética ter seus pelos eriçados, grite no meu ouvido, porque estou tão sensível que o exagero estilístico do peso da pena que cai da torre de Pisa poderá me derrubar! É só estabelecer os meus limites, e dizer que me ama e que não me absorverá na boca como água, porque não quero que tenha sede de mim; e dizer o incalculável e doido axioma de que nada perecerá, e por ser vitalício, não precisará ser feito de material verdadeiro, muito menos sacro; pode ser fetiche, oferenda de sangue simbólico e temporário num contentamento bramânico que deite fora meus complexos e me faça dançar novamente.

sem nome

Quando as nuvens põem-se a guerrear
e a luz da lua faz descer seus guerreiros sobre cavalos abstratos
para trotear pelas ruas da cidade,
num estertor poético de cascos
convocando
as 55 mil bocas desta cidade
para comer da minha poesia,
é que me ponho doido atrás de embelezamento e ordem

cavouco com faca a gramínea resistente

tinjo de cal os paralelepípedos

podo o topo das árvores

troco as lâmpadas dos postes

e nem que me custe à exaustão
ou a própria morte
vou de porta em porta
deixar uma rosa atada
com meu festejo-prece: 

junta tuas mãos em concha,
a minha poesia é tua oferenda.

Rafael Geremias