Dry, Ansiedade A



A ansiedade amarrou minha boca.
Cortou meus lábios sem sangrá-los.
A ansiedade fumou meu último cigarro
e devorou os restos da minha geladeira,
bebeu do meu Dry Martini e comeu minha azeitona.
A ansiedade fez-me correr de pernas atadas.
Fez-me subir até o último andar do edifício
de vista vertiginosa, para depois me fazer descer.
Fez-me lavar as mãos
obstinadamente.
Fez-me ajoelhar diante de santos e demônios
como se eu acreditasse nessas coisas de imagens
sacras, sacrílegas, acrílicas, argila, Aleijadinho.
A ansiedade fechou minha porta
e enterrou as chaves no cimento fresco,
agora, já seco.
A ansiedade expulsou-me de mim mesmo,
pôs-me desabrigado...
abrigado nesse teto
de azul tempestuoso, que vez ou outra expõe
suas estrelas.


Estou exposto, fraco, deliberadamente mal,
meus joelhos doem, minhas mãos tremem
mais que de costume, e meus pés tropeçam;
Fui, dia desses, à Paris, New York e Bangladesh.
Meus pés tropeçam nas orelhas desse poema.
Também, dia desses, olhei para dentro da janela
e a mesa estava posta, composta, bosta.
Meus lábios tremem querendo romper
com a costura;
minha avó era costureira,
e eu aqui tentando alinhavar lembranças
sem nem ao menos usar dedais.
Estou fraco e minha coluna mantém-se tão rija
quanto uma estátua de mármore perdendo
suas partes para o tempo.


Estou caindo, caindo, cainn...
A ansiedade me empurrou vetorialmente
com direção, sem sentido, compridamente abaixo
num túnel escavado sobre a linha de terra.

Estou caindo, caindo e toca
obsessivamente uma música que conta
sobre fumaça de navios avistados de longe
furos de alfinetes,
uma certa agonia,
um grito putrefazendo-se no ar por vermes,
todavia,
sem mais dores e sofrimentos.

Algumas pedras me acompanham nessa descida.
Pedrinhas como aquelas que aparecem nos filmes
quando o mocinho está prestes a escorregar da beira do abismo,
e vem, obrigatoriamente alguém e lhe puxa pela mão.


Não, eu não sou o mocinho dessa história,
Quem sabe um banal figurante com trajes antigos,
Uma prostituta de milhares de políticos engomados;
Ou, mesmo, um sodomita em filmes para adultos.
talvez um serviçal que marca presença servindo xícaras
de chá para o patrão enquanto este:

-Oh, sim, tratemos disso mais adiante...

sou infelizmente dispensável.

Estou caindo
caindo
caindo

8 comentários:

  1. vc escreve muito bem
    e gostei do efeito que traz as fotos com o post

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  2. Rafinhaa... Perfeito.
    Adorei sua palavras e suas fotos!
    Grande beijo!

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  3. Eu quero as vezes ficar parada, mas nao por ser impulsiva. Bem, é muita coisa para ue tentar fala por aqui. E essa coisa de olhar paredes brancas, nossa, como entendo!

    Eu gostei muito muito mesmo do post. Gostei do texto, das fotos, e ah! a ansiedade! Como sofro com essa daí também. Chego a ter ansiedades bobas, como de querer ir dormir cedo para apenas saber se o dia de amanhã será melhor que o de hoje.

    Bom dia para você, beijo.

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  4. me senti tao proxima do post

    adorei vir aki
    ^^

    abraços

    belo blog

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  5. Adorei as fotos... E o que está escrito, já te falei né?
    Muito bom mesmo...

    beijos Rafa

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  6. Tuas palavras captam a essência desses momentos amargos, em que tudo e nada se repetem, onde tudo e nada tem sentido. O retrato exato do momento em que desesperada e inevitavelmente se cai.

    Abraços

    Valeu pela visita. Muito bom esse lugar. Passarei sempre por aqui.

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  7. É... a anciedade fode com agente... sou um ser ancioso, e é chato!
    adorei o blog...
    muito bom!
    bjus ;**

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  8. Muito bom Rafael! E infelizmente me identifiquei pra caramba!! :) Ô trocinho chato é a tala da ansiedade...

    Que bom que gostou do blog, o crudismo é realmente uma experiência maravilhosa!!

    bjs,
    Andrea

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Rafael Geremias