Alento I




Escorrego a mão para pegar a cueca, visto-a, faço o mesmo com a calça, a camiseta, o moletom. Levanto-me às seis horas da manhã e ainda está noite, e o mais triste, nunca vejo o nascer do sol. Não dá tempo para abrir o blecaute que cobre toda a janela. O dia já raiou.

Tem granola no café da manhã, iogurte com granola, com suco e pão integral, tem também ricota com banana. Mastigo e penso que engulo carboidratos e proteínas, engulo biologia. Há tempo perdi o paladar para o sabor e adquiri o pudico hábito de devorar lentamente tabelas nutricionais, no mercado mesmo, não compro alimentos, compro informações.

Meto a chave e a giro.
Estou ansioso.
A porta range.
Estou me abrindo.
Estou abrindo o mundo.

Cuspo-me para um novo dia que raiou há alguns minutos atrás, e confesso que tenho abalos, tremo, tenho medo de toda essa extensão que se estende defronte a mim, porque me esfarela, porque estraçalha com o luxo dos véus que revestem este conto de fadas censurando-o às minhas crianças; perco meus ouvintes, os mesmo perdem sua grandeza, e eu sou remetido ao primeiro natal em que o bom velhinho se ausentaria definitivamente da minha vida. Esta foi a primeira vez que fui esbofeteado.

Estou caminhando, aliás, enquanto contava dos meus medos, já estava caminhando em direção aos deveres-cidadão. Proíbo minha mente, veto-a de pensar, mas é em vão, é um hábito que com raízes grossas fixou-se em mim e não me tem feito bem, tem me desgastado, pois me resta apenas dez por cento da visão. Estou caminhando e não consigo enxergar as ruas, as casas, os prédios. Sei onde estão porque fazem sombra sobre minhas sinapses e porque tenho um labrador como animal xamânico, o qual me guia e assegura minha mãe de que seu filho retorne a casa nos fins de tarde ainda vivo.

Já entardece e percebo que mais um dia se passou e que toda aquela ansiedade que me referi era pura esperança travestida, cuja se esvaece como o sol da tarde.

Meto a chave e a giro.
Estou exausto.
A porta range.
Estou me fechando.

Estou fechando o mundo.


3 comentários:

  1. Adorei.

    Sabe... O final no seu post me lembrou uma frase de um anime, Serial Experiments Lain.

    Ela diz: Close this world. Open the Next. (Feche esse mundo. Abra o próximo).

    Sabe... Eu ando pelas ruas, as vezes pensando, muitas sonhando.
    'são temos difíceis para os sonhadores também'.

    Passarei mais por aqui hoje ao longo do dia. É que são 5:31 da manhã. E eu tenho que passar também as mãos em minhas roupas, comer qualquer coisa e sair para levar meus sonhos para tomar banho de chuva.

    Um xero!

    P.S.: Meu inglês não é bom. Principalmente de 5:30 am. Se tiver algum erro, desculpas. =)

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  2. blz rafa?
    ó eu aqui pela primeira vez... xD
    seu post foi ótimo, como todos os outros que eu li e nao comentei... mas nesse eu fiquei pensando:
    "que tipo de maluco tira foto da propria cueca?"
    profundissima essa questao existencial que me propus a responder... e a unica resposta possivel eh:
    "o maluco do Rafael!"
    o unico q msm em seus delirios com peças do vestuario intimo masculino ainda consegue ver nisso profunda poesia... ^^
    feliz dia das mães (pra sua mãe, claro!) e um bom fim d domingo regado à fantástico e domingo maior... xD
    abraçao cara

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  3. Ha, cá estou eu novamente...

    Gostei dessa sua história. Mesmo pelo fato dele ser cego, d'eu a entender que ele vive tão normalmente quanto as outras pessoas, que vivem reclamando da vida mas não param pra pensar:

    "E se eu fosse cego?"

    "E se eu fosse tetra, ou paraplégico?"

    "E se eu fosse surdo?"

    "E se eu fosse mudo?"


    Assim como ele, eu me "cuspo" consecutivamente nos dias imprevisíveis de Brasília, sempre atrás de uma nova aventura, de um novo olhar, um novo amigo, algo novo pra ler...

    Quanto às agressões, bem, eu escrevi daquela forma pois é como uma ou outra pessoa antiquada se expressa em relação aos homossexuais (ah, eu também sou gay).

    Nossa, é uma maravilha assistir um desfile ao vivo. Quando eu assisti o do Alexandre Herchcovitch, quase que choro de emoção, sério, pois adoro as criações desse brazuca e é nele que me inspiro quase que sempre pra fazer meus desenhos...

    E sobre os narizes em pé, bem, eu discordo um pouco. Uma coisa é você ser consumista, ter dinheiro pra coisa, e outra é você ser nariz empinado porque realmente quer... Tem as diferenças, pois conheço uma penca de gente estilosa, com grana no bolso que nem por isso fingem sorrisos blasé no rosto. Acredite, tem gente que faz isso por mal mesmo.

    PS.: Gostei da cueca!


    Vou continuar lendo, e vou te linkar também...

    Grande abraço!

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Rafael Geremias