Sobre os Enganos



Eram Olhos arregalados e buliçosos, estes que aqui vos exponho, nascidos na sola do meu pé esquerdo. Olhos possuidores de uma habilidade inconteste em penetrar as vossas cascas-vagas-humanas e exauri-las de suas almas. Mentira! Acham que minto, por eles parecerem inocentes? Escritores não mentem, nunca mentem, suas histórias são de santo sepulcro, escritores vêem o que vossos olhos não captam, nem que coloquem lã de aço em vossas antenas.
Voltando aos olhos, eles são o que eu quero que eles sejam, tenho direito de imprimir-lhes os adjetivos que eu quiser, e eles no momento passam por mim como exímios gatunos, bisbilhoteiros e que se fossem línguas, seriam línguas ferinas.

Não sei ao certo o porquê de eles escolherem o meu pé esquerdo para se acomodarem e não a minha mão direita, esta que aperta tantas outras conseguindo uma maior proximidade com os próximos assaltados, não é essa sua função, assaltar? No pé se escondem num tênis a maior parte do dia, são pisoteados e então, quando se vêem livres já esta na hora de ir-me deitar e carregá-los novamente para o mundo obscuro de minhas cobertas; na certa devem ser como aqueles peixes que estudamos em biologia com olhos exorbitantes e medonhos que encontramos bem no fundo do mar, lá onde a pressão é muito baixa. Será que estes olhos não são um desses peixes que grudaram na sola do meu pé na última vez que entrei no mar? No entanto, não me recordo de ter mergulhado mais que um metro e sessenta e cinco, ou, estou louco ou os livros desconhecem o relevo submarinho?

Supomos que os livros desconhecem e que ainda não endoideci, então, quando entrei no mar pisei num desses peixes e estes agora habitam na sola do meu pé, e que possuem olhos arregalados e buliçosos porque sempre o tiveram, não por malícia como confabulei, reconheço que me enganei, peço desculpas, não ao leitor, mas aos Olhos-Peixe, ora, chamei-os de ladrão, pode?

Envergonho-me às vezes por ser tão presunçoso a ponto de sair fazendo juízo até de um pobre ex-peixe. Eu é quem deveria habitar àquela escuridão pelágica e nunca mais sair por aí com essa mesquinharia, nem sou tão bom escritor assim, nem tenho convite para entrar na Academia de Letras, e também, os leitores me fogem como ratos, - diga-se que ratos porque escapolem por qualquer buraquinho -; por que insisto em criar essas histórias que ninguém irá ler? Esperança. Um dia alguém ainda me pede em casamento.




Posts toda sexta

Por Darwin


Por DarWin

O contrário que me faço
é o avesso de meu corpo estruturado
refletido em ordem inversa,
como uma melancia, que não se sabe o porquê,
decide crescer com a casca no seu núcleo,
um caroço talvez,
envolvido por toda aquela carne porosa
que desprende uma água tão melissa.

Faço-me assim todos os dias,
como quem procura algo a mais dentro de si
por algum motivo que só Deus deve saber.

Na primeira viagem que fiz,
aspirei-me por inteiro pela boca,
desloquei todo esse revestimento
ao inflar os pulmões.
Dessa primeira viagem voltei músculo,
vi-me tão estirado que em mais uma viagem
insisti.

E ao inflar os pulmões
e sorver os músculos
fiquei osso e osso, ou osso e cartilagem,
até minha língua achou um caminho pelo
qual seguir e desabar ao chão, enfim,
tudo foi ao chão, menos eu que permaneci
como os ossos
pós-velório-túmulo-cinco-anos.

Então,
o fato dos sacos respiratórios faltarem a mim,
criou-se uma nova órbita para o reinvento,
a qual me translitera a alma num único alento,
num único símbolo, num singular momento:

Viver é a habilidade sobre-humana
de reinventar-se sob feijão com arroz.

Mais uma vez...

Eu ainda não me entendo... quem se entende?

O fato é que mais uma vez estou apostando todas minhas fichas num blog; já fiz tanto disso. Mas, renovar é preciso e escrever também, principalmente escrever aquilo que eu não escreveria por achar às vezes piegas, às vezes pouco literário, às vezes "ninguém vai ler"; que me importa agora tudo isso? Escrevo e vou escrevendo, talvez traindo a fôrma, entretanto, o que realmente importa se não a expressão?


Esclareço aqui que este post é uma introdução sem ninguém pedir, no entanto, o que é um blog senão um monte de palavras organizadas por uma suplica que é apenas subjetiva?


Agradeço sua paciência por ter lido isso, e por ventura "desagradeço".


Subversivo é o ato,
subversão é o palco.



Rafael Geremias